O Instituto Moreira Salles em São Paulo apresenta uma retrospectiva da obra completa de Abbas Kiarostami, momento oportuno para analisar a maneira como ele construiu uma relação inédita entre o filme e quem assiste.

Das raízes do cinema até Kiarostami

No período clássico de Hollywood, o cinema buscava harmonizar-se com o público, projetando desejos e sentimentos compartilhados. O filme funcionava como um espelho das aspirações do espectador, como o anseio por um amor ideal. Já no cinema moderno, o papel do autor ganhou destaque. O diretor passou a oferecer ao público sua visão pessoal, dividindo claramente a tela e a plateia e propondo reflexões sobre a existência, a história ou a fantasia.

Ambos os modelos, entretanto, mostraram limitações, e a busca por um novo modo de relação entre ficção e espectador persiste até hoje. É nesse contexto que Kiarostami traça um caminho singular.

O espetáculo em três atos de Kiarostami

O cineasta iraniano estrutura seus filmes em etapas que promovem um diálogo sutil. Em “Através das Oliveiras”, por exemplo, acompanha a história de Hossein, jovem afetado por um terremoto que vive em uma tenda e busca conquistar a confiança da avó de sua amada Tahereh, proibida de se relacionar com ele por motivos de classe social.

Apesar da dedicação de Hossein, Tahereh permanece ambígua, sem revelar claramente seu sentimento, deixando lacunas que convidam o espectador a refletir e preencher com sua própria interpretação. Esta falta de respostas definitivas permite que o filme funcione como um espelho aberto, onde cada pessoa pode se reconhecer ou rejeitar a narrativa.

Atores amadores e a autenticidade do discurso

Kiarostami geralmente trabalhava com não profissionais do interior do Irã, acreditando que impor gestos ou falas destruiria a autenticidade. Ele preferia captar a naturalidade das pessoas e suas verdades pessoais, criando uma obra que não é uma mensagem unilateral, mas sim um convite ao diálogo.

Este método gera uma experiência diferente para o público, que chega a discutir o que viu não apenas em termos do que o diretor quis dizer, mas do que aquilo provoca em sua própria história e visão de mundo.

Um cinema para refletir e identificar

Em “Onde Fica a Casa do Meu Amigo?”, a busca do menino para devolver o caderno do colega pode ser vista de múltiplas formas. O espectador pode enxergar ali uma crítica à autoridade ou uma lembrança pessoal de tempos em que se sentiu incompreendido. Assim, o filme se torna um espaço onde a ficção, a plateia e a realidade se entrelaçam, ampliando a experiência cinematográfica.

Com essa estrutura tripartida e aberta, Kiarostami rompe com modelos anteriores e amplia o papel do cinema, que passa a não apenas contar histórias, mas a envolver o público em um diálogo permanente e imprevisível.

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Com informações de redir.folha.com.br.

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