Ana Paula Tavares não escreve sobre o corpo feminino como quem observa de fora, mas como quem o sente e o reivindica. A poetisa angolana utiliza sua obra para explorar as diversas expressões da feminilidade, mostrando a mulher como um ser de desejos e autonomia, não um objeto de estudo.
Em uma conversa franca, ela revela que questionava o olhar exterior que predominava nas alusões ao corpo da mulher na literatura. Perguntava-se o que as próprias mulheres pensavam sobre o corpo que habitam. Essa dúvida orienta seu trabalho e dá voz a experiências femininas que muitas vezes ficam silenciadas.
Uma trajetória entre poesia e antropologia
Com 73 anos, Ana Paula Tavares é doutora em antropologia pela Universidade Nova de Lisboa e professora na Universidade Católica de Lisboa. A poeta é uma das maiores referências da literatura em língua portuguesa no mundo contemporâneo e foi a segunda mulher africana a conquistar o prêmio Camões em 2023, uma honraria que destaca sua contribuição estética e cultural.
Seu livro de estreia, “Ritos de Passagem”, de 1985, já mostrava a intimidade do eu lírico com seu corpo e seus limites. Em seus versos, a resistência à submissão e a afirmação de autonomia feminina ganham voz clara e firme. Essa abordagem foi resultado de uma decisão consciente de tomar posse de seu próprio corpo, algo que ainda considerava um desafio.
Representatividade feminina na literatura de língua portuguesa
O prêmio Camões chamou a atenção para a baixa presença de mulheres e autores africanos entre os laureados, com apenas dez mulheres entre 38 vencedores. Ana Paula destaca a necessidade de maior reconhecimento do que as mulheres já fizeram e ainda fazem, tanto na literatura quanto na vida cotidiana. Ela ressalta que, em Angola, as mulheres carregam o peso das responsabilidades familiares e sociais, uma realidade que atravessa gerações.
Conexões entre Brasil e África na literatura
Na Flip deste ano, Ana Paula apresenta seu livro de crônicas “O Sangue da Buganvília” e divide sua experiência com o público brasileiro. Ela comenta a distância e, ao mesmo tempo, a ligação entre os países de língua portuguesa, apontando que o Brasil tem avançado em conhecer a cultura africana graças à educação, mas que o fluxo inverso ainda é tímido.
Entre suas influências, a poeta cita nomes brasileiros como Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto, que trouxeram novos modos de narrar e criar personagens. Em particular, lembra Jorge Amado e sua abordagem da liberdade feminina, vista com estranhamento na época, mas que abriu portas para debates sobre a mulher na literatura.
Raízes e natureza na obra
Além do corpo e da condição feminina, Ana Paula Tavares também se inspira nas paisagens de sua terra, Huíla, em Angola. Seus poemas evocam a vida rural, a presença da natureza e a tradição oral que marcaram sua infância. Essa relação profunda com o ambiente e a cultura popular enriquece sua escrita com imagens vivas e sensações autênticas.
Desde pequena, a escola e os livros foram instrumentos para ampliar seus horizontes e entender novas formas de viver e pensar a feminilidade. Sua literatura é um convite para conhecer essas vozes e refletir sobre o que significa ser mulher em diferentes mundos e tempos.
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