Uma nova audiência realizada pelo Comitê de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado dos Estados Unidos evidenciou as divisões políticas que persistem sobre a resposta do governo americano à pandemia de COVID-19. O encontro, realizado na quarta-feira, enfatizou críticas principalmente dos senadores republicanos ao imunologista Anthony Fauci, que liderou o combate federal à doença.
Política e controvérsia em torno da origem do coronavírus
Conduzida pelo senador Rand Paul, a sessão reforçou a teoria defendida por alguns republicanos de que o vírus SARS-CoV-2 teria escapado de um laboratório em Wuhan, na China, ao invés de ter sido transmitido naturalmente de animais para humanos. O debate, contudo, pouco avançou na obtenção de novas evidências, segundo especialistas.
Stephen Morrison, diretor do Centro de Políticas Globais de Saúde do CSIS, comentou que o evento refletiu a profundidade do conflito partidário, sem espaço para discussões civis ou avanços significativos sobre o tema. Para ele, a audiência apenas prolongou o desgaste pessoal para Fauci e sua família, sem contribuir para a elucidação do debate ou para a definição de políticas futuras.
Relatório de 2024 e posicionamento político
A base da discussão foi um relatório de 520 páginas lançado em 2024 pelo Subcomitê Seletivo sobre a Pandemia de Coronavírus, liderado por republicanos. O documento sugere que o SARS-CoV-2 teria surgido no Instituto de Virologia de Wuhan. O senador Paul e o ex-presidente Donald Trump apoiam essa tese.
Em abril do ano passado, a Casa Branca divulgou uma página na internet alegando revelar “as verdadeiras origens da COVID-19”, fundamentada principalmente nesse relatório. O site afirma que o vírus apresenta uma característica biológica inexistente na natureza e que todos os casos da doença derivam de uma única introdução em humanos, diferentemente de pandemias anteriores.
Essas declarações foram contestadas por especialistas, como o professor Joel Wertheim, que esclareceu que essa característica do vírus existe em outros coronavírus e, portanto, é natural. Dois estudos publicados em 2022 também indicaram múltiplas vias de infecção humana inicial, refutando a hipótese de uma única origem.
Fauci no centro das críticas e defesas
A página da Casa Branca também focou em Fauci, que comandou o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID) até 2022 e foi principal assessor médico do presidente Joe Biden. Em janeiro de 2025, Biden concedeu um perdão preventivo a Fauci, temendo sua possível prisão durante uma eventual segunda administração de Trump.
Antes da audiência, Trump voltou a criticar Fauci publicamente, chamando suas ideias de “loucas” e acusando-o, sem apresentar provas, de acobertar a China, país onde a COVID-19 foi inicialmente registrada. Quando a pandemia começou, Trump estava em seu primeiro mandato.
Discussões científicas e posição internacional
Dentro da comunidade científica internacional, houve questionamentos sobre o rápido descarto da hipótese de vazamento laboratorial no início da pandemia, já que a questão foi politizada. Até o momento, não há evidências conclusivas que confirmem nem a teoria do laboratório nem a da origem natural.
A maioria dos infectologistas, incluindo Fauci, considera que ambas as possibilidades permanecem abertas, embora a hipótese de transmissão zoonótica, provavelmente de morcegos para humanos, tenha maior respaldo.
Uma pesquisa de 2024 realizada pelo Instituto de Risco Catastrófico Global indicou que a maioria dos virologistas acredita que a origem natural é mais provável, embora não descartem totalmente a hipótese de vazamento.
Em 2025, após três anos de investigações, um comitê consultivo da Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um relatório que também apontou para a origem zoonótica como a mais provável, mas reforçou que todas as hipóteses devem continuar sendo consideradas.
Fauci sempre defendeu que as evidências científicas indicam a origem natural do vírus, mas rejeitou ter desconsiderado de forma categórica a possibilidade do vazamento laboratorial. Em carta de 2024 à Câmara dos Representantes, seus advogados afirmaram que é incorreto dizer que Fauci classificou essa hipótese como uma “teoria da conspiração”. Eles explicaram que ele e seus aliados rejeitam diversas teorias conspiratórias associadas ao vazamento, como a acusação infundada de que teria agido secretamente para manipular agências de inteligência.
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Com informações de www.aljazeera.com.
