Um novo obstáculo militar construído no Vale do Jordão, na Cisjordânia ocupada, está isolando diversas comunidades palestinas de suas terras, beneficiando colonos israelenses. O trajeto até a casa de Thaer Bisharat, que normalmente levaria menos de 10 minutos, demorou três horas devido aos bloqueios constantes nas entradas de Ras al-Ahmar, no norte do Vale.
Os acessos ao local estão fechados e vigiados por soldados e colonos, cujas funções têm se tornado cada vez mais difíceis de distinguir. Atualmente, apenas uma estrada de terra sinuosa, adequada apenas para veículos com tração nas quatro rodas, permite o acesso, sendo necessário evitar patrulhas israelenses durante o percurso.
Restrição e destruição de infraestrutura
Durante a viagem, o local sofria um bloqueio mais intenso, pois as forças israelenses estavam próximas na planície de al-Buqaia, destruindo três poços de água pertencentes a palestinos, incluindo um de um parente de Thaer. A região, conhecida por sua fertilidade, possui plantações de bananas, uvas, azeitonas e batatas, mas muitas propriedades estão abandonadas, com estufas e plantações privadas de água desde que o fornecimento foi cortado pelas autoridades israelenses semanas atrás.
Thaer relatou que a antiga viagem de 10 minutos desde Tamun agora leva pelo menos uma hora pela estrada de terra. Ele também descreveu uma situação de intimidação recente, quando pessoas vestidas com uniforme militar visitaram moradores próximos a plantações de banana, recolhendo documentos de identidade, nomes e números de telefone, além de ameaçar a retirada dos residentes em 24 horas sob risco de confiscarem suas propriedades.
Avanço da barreira ‘Fio Carmesim’
Essa situação faz parte do avanço da obra conhecida como barreira ‘Fio Carmesim’, anunciada em 2025. O primeiro trecho consiste em uma trincheira e uma estrada militar de cerca de 22 km entre os pontos de controle de Ein Shibli e Tayasir, que separa o norte do Vale do Jordão de Tubas e Nablus. Oficialmente, o governo israelense alega que a barreira visa impedir o contrabando de armas vindas da Jordânia, porém, o traçado avança vários quilômetros para dentro da Cisjordânia, e não segue a fronteira já cercada com a Jordânia.
O projeto prevê um total de 500 km de barreira, que separaria palestinos de milhares de hectares de terra, gerando um efeito semelhante ao muro de separação existente do outro lado da Cisjordânia.
Pressões para retirada e expansão de assentamentos
No dia 8 de março, o comandante militar israelense Gilad Shriki visitou comunidades palestinas e teria alertado os residentes para deixarem a área em preparação para uma tomada completa por Israel. Em decisão recente, a Suprema Corte israelense autorizou a continuidade das obras da barreira.
Desde então, a Administração Civil israelense intensificou as ações, com cerca de três quilômetros de trincheiras já abertas, destruindo infraestrutura palestina, como sistemas de irrigação, plantações e estufas, além de cortar o acesso dos agricultores às suas terras. O traçado foi definido por nove ordens de apreensão de terras, configurando um aumento significativo das ações para deslocar palestinos, conforme análise de Dror Etkes, pesquisador de políticas de terra do grupo israelense Kerem Navot.
O processo evoluiu de pontos de controle e zonas militares para medidas mais agressivas, como ataques de colonos, invasões militares e confisco de propriedades, com a justificativa de segurança sendo usada para apropriação de terras.
Thaer questiona a alegação oficial de que a obra é uma estrada militar: ele destaca que uma trincheira de dois a três metros de profundidade não se justifica para essa finalidade. Segundo Etkes, a barreira não apenas bloqueia o acesso palestino às terras agrícolas localizadas a leste, mas também conecta assentamentos ilegais existentes a um novo posto avançado em construção no Jabal Tamun, que deverá afetar entre 8 e 9 mil dunams de terra agrícola, a maioria situada na Área B.
O avanço da barreira e a pressão permanente têm levado à saída forçada da maioria das comunidades locais, consolidando o controle dos colonos na região.
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Com informações de www.aljazeera.com.
