A Bélgica chega à Copa do Mundo de 2026 mais direta, mais rápida e mais agressiva do que nas últimas edições. Sob Rudi Garcia, os Diabos Vermelhos abandonaram a posse de bola elaborada da geração dourada e apostam num jogo vertical, com Jeremy Doku como protagonista.
A mudança rompe com o legado de uma geração que encantou o futebol entre 2014 e 2022. Aquele time construía jogadas com paciência, aproveitando a genialidade de Kevin De Bruyne para criar espaços. O novo modelo exige transições rápidas, pressão alta em momentos específicos e exploração das linhas laterais com velocidade — algo que Doku executa com naturalidade na Premier League.
A convocação ainda carrega nomes históricos. Ao menos seis jogadores que participaram da vitória sobre o Brasil nas quartas de final da Copa de 2018 seguem no grupo, incluindo De Bruyne e Romelu Lukaku. A presença desses veteranos ao lado de uma nova geração cria um equilíbrio delicado, mas potencialmente poderoso em campo.
Esquema tático da Bélgica 2026: o 4-2-3-1 que vira 4-4-2
Garcia parte de um sistema 4-2-3-1, com De Bruyne como meia central avançado e Lukaku como centroavante referência. O esquema, porém, é só o ponto de partida. Ao longo das partidas, o time se reorganiza constantemente, tornando-se difícil de ser lido pelos adversários.
O jornalista Leonardo Miranda, especialista em tática e formado em análise de desempenho pela CBF, descreve como funciona essa fluidez estrutural:
“O esquema é apenas o ponto inicial de uma série de movimentações que acontecem: Doku e Trossard mais fixos nos lados, Tielmans e Onana avançando mais e uma defesa um pouco mais compacta, que não sobe a marcação toda hora.”
Leonardo Miranda, jornalista e especialista em análise tática, formado em análise de desempenho pela CBF
Quando perde a bola, a equipe recua para um 4-4-2 organizado. Lukaku e De Bruyne formam a dupla adiantada de pressão. A linha defensiva fica mais compacta e não sobe em bloco a todo momento — o que reduzia a vulnerabilidade belga a contra-ataques nas edições anteriores da Copa.
Doku, De Bruyne e Lukaku: os três pilares do ataque belga
Jeremy Doku é a principal aposta ofensiva para o Mundial. O ponta do Manchester City se destaca pela velocidade, pela capacidade de encarar adversários em duelos individuais e pela eficiência pelo lado esquerdo. Num time que busca explorar as alas com mais frequência, ele se encaixa com perfeição no modelo de Garcia.
O esquema preserva papéis centrais para os dois maiores ícones da seleção. De Bruyne atua de forma mais centralizada, como o cérebro da equipe na distribuição e na criação em espaços reduzidos. Lukaku segue como referência na área, responsável por converter as oportunidades geradas ao redor dele.
- Jeremy Doku (Manchester City): ponta fixo pelo lado esquerdo, velocidade e dribles como principais armas; candidato a artilheiro e destaque do torneio
- Kevin De Bruyne: meia centralizado, criador de jogadas, mais recuado em relação às Copas anteriores para dar equilíbrio ao time
- Romelu Lukaku: centroavante referência, finalização e ocupação da área; um dos artilheiros históricos da Bélgica
- Leandro Trossard: ponta pelo lado direito, mais fixo na posição para dar largura e opções de cruzamento
- Youri Tielemans e Amadou Onana: dupla de volantes com liberdade para avançar e compor o meio-campo ofensivo
Geração dourada no ocaso e a pressão que ficou para trás
A geração dourada da Bélgica foi uma das mais elogiadas do futebol mundial por quase uma década. Entre 2014 e 2022, o país ocupou por longos períodos o topo do ranking da FIFA, acumulou eliminações dolorosas em fases decisivas e nunca converteu o talento coletivo em um título. O terceiro lugar na Copa da Rússia, em 2018, com a vitória sobre o Brasil por 2 a 1 nas quartas de final, permanece como o maior resultado da história recente do futebol belga.
Em 2026, a pressão existe, mas tem outra natureza. A expectativa de uma geração vencedora cedeu lugar à consciência de que o ciclo chegou ao fim natural. Este pode ser o último Mundial de grandes nomes como De Bruyne e Lukaku. Garcia construiu uma seleção mais realista sobre suas possibilidades — e times sem o peso de uma obrigação histórica costumam surpreender.
A Copa do Mundo de 2026 acontece em formato expandido, com 48 seleções, nos Estados Unidos, Canadá e México. A Bélgica está classificada e deve conhecer seus adversários na fase de grupos nas próximas semanas. Com modelo de jogo redefinido, novos protagonistas ao lado de veteranos experientes e Doku como carta na manga, os Diabos Vermelhos têm potencial real para avançar às fases eliminatórias e ir além do que se espera de uma equipe em reconstrução.
