Pesquisadores do Projeto Conservação Recifal (PCR), sediado em Pernambuco, testam probióticos para aumentar a resistência de corais ao aquecimento dos oceanos. O estudo mantém fragmentos em 24 aquários — o chamado “berçário de corais” — após 80% dos corais entre Pernambuco e Alagoas morrerem nos últimos anos.

Um monitoramento sistemático do litoral nordestino expôs a dimensão da crise. A perda em massa desses organismos ameaça a biodiversidade marinha e gera impactos diretos na pesca artesanal e no turismo regional. A equipe do PCR decidiu testar uma abordagem ainda pouco explorada na conservação recifal.

A estratégia expõe fragmentos de coral-de-fogo a cepas de microrganismos benéficos antes de submetê-los a estresse térmico simulado nos aquários. A hipótese é que esses microrganismos fortaleçam o microbioma dos corais, tornando as colônias mais resistentes ao aquecimento progressivo que a crise climática impõe aos oceanos.

Como funciona o experimento com probióticos em recifes de corais

O “berçário de corais” do PCR opera como um laboratório de sobrevivência controlada. Os aquários mantêm fragmentos vivos em condições monitoradas: alguns grupos recebem doses variadas de probióticos, outros funcionam como controle, sem tratamento. A comparação entre eles vai indicar se os microrganismos benéficos alteram a capacidade de resposta dos animais ao calor.

📊 Contexto: Corais são animais marinhos que vivem em simbiose com algas microscópicas chamadas zooxantelas. Quando a temperatura do mar sobe acima do tolerável, essa simbiose se rompe, as algas são expulsas e os corais ficam brancos — processo conhecido como branqueamento. Sem as algas, que fornecem até 90% da energia dos corais, os organismos podem morrer em semanas. O fenômeno se intensificou globalmente a partir dos anos 1980 e atingiu proporções sem precedentes entre 2023 e 2025.

O foco inicial no coral-de-fogo tem justificativa ecológica. A espécie foi gravemente afetada pelo aumento das temperaturas no litoral nordestino e é estruturalmente relevante para os recifes locais. Os resultados dos testes em aquário vão embasar uma fase mais ambiciosa da pesquisa.

“Os cientistas planejam avaliar o comportamento das espécies tratadas e aplicar a estratégia diretamente nos recifes em ambiente natural em 2027.”

Pedro Pereira, coordenador do Projeto Conservação Recifal (PCR)

O estudo conta com parceria da UFRJ e de uma universidade saudita. A Arábia Saudita abriga parte do Mar Vermelho, um dos poucos sistemas recifais do mundo com resistência natural a episódios de aquecimento extremo. O intercâmbio pode trazer dados comparativos sobre quais cepas de probióticos e quais condições ambientais favorecem a resiliência dos corais em diferentes regiões.

Impactos da morte dos corais na economia e na biodiversidade do Nordeste

A destruição de 80% dos corais entre Pernambuco e Alagoas representa uma das maiores perdas ecológicas já registradas no litoral brasileiro. Os recifes de corais cobrem menos de 1% do fundo oceânico global, mas sustentam cerca de 25% de todas as espécies marinhas conhecidas. No Nordeste, os recifes formam barreiras naturais contra a erosão costeira, criam berçários para peixes comercialmente importantes e atraem turistas de mergulho que movimentam economias municipais.

  • Pesca artesanal: a redução dos recifes diminui a disponibilidade de espécies-alvo e compromete a renda de comunidades pesqueiras tradicionais ao longo do litoral nordestino.
  • Turismo de mergulho: destinos como Porto de Galinhas (PE) e Maragogi (AL) dependem diretamente da saúde dos recifes para manter atratividade e receita.
  • Proteção costeira: sem os recifes como barreira natural, praias e comunidades ficam mais expostas à erosão e ao avanço do mar — problema que se agrava com a elevação do nível dos oceanos.
  • Biodiversidade: espécies que dependem dos recifes para reprodução e alimentação perdem habitat crítico, com efeitos em cascata em toda a cadeia alimentar marinha.

O relatório do IPCC de 2023 indicou que, mesmo no cenário de aquecimento de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, entre 70% e 90% dos recifes de corais tropicais do mundo estariam funcionalmente comprometidos até 2050. No cenário de 2°C, a perda superaria 99%. O Brasil, com uma das maiores extensões de recifes do Atlântico Sul, tem papel direto na busca por soluções de conservação marinha.

📊 Contexto: O Brasil possui cerca de 3.000 km² de recifes de corais, concentrados principalmente no Nordeste, entre o Maranhão e o Espírito Santo. O Banco dos Abrolhos, na Bahia, abriga a maior biodiversidade recifal do Atlântico Sul. Nos últimos dois anos, eventos de branqueamento em massa atingiram simultaneamente recifes australianos, caribenhos e brasileiros, em um fenômeno sem paralelo histórico documentado.

A abordagem com probióticos está entre as mais promissoras por sua potencial escalabilidade e baixo impacto invasivo sobre os ecossistemas. Outras linhas de pesquisa em curso no mundo incluem a criopreservação de gametas de corais, o desenvolvimento de colônias geneticamente selecionadas por tolerância ao calor e técnicas de restauração ativa com fragmentação e reimplante em recifes degradados.

Se os testes nos 24 aquários do PCR confirmarem a eficácia dos probióticos, a equipe prevê aplicar a estratégia diretamente nos recifes em 2027. O avanço pode se tornar um modelo replicável para outros países que enfrentam a mesma crise, com potencial de influenciar políticas globais de conservação recifal nas próximas décadas.

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