O Instituto Nacional de Câncer (INCA) emitiu alerta formal sobre os riscos dos cigarros com sabor para crianças e adolescentes no Brasil. O órgão aponta que aditivos como mentol, frutas e doces mascaram a aspereza da fumaça do tabaco, tornando o primeiro contato com a nicotina mais agradável e elevando a probabilidade de dependência química entre jovens.
Os cigarros aromatizados — incluindo os populares cigarros eletrônicos com sabores variados — são apontados pelo INCA como estratégia deliberada da indústria tabagista para recrutar consumidores cada vez mais novos. Sabores que vão de baunilha e morango a chicletes e bebidas alcoólicas reduzem a percepção de risco e criam a falsa impressão de que o produto seria menos prejudicial que o cigarro convencional.
Estudos nacionais e internacionais citados pelo instituto mostram que adolescentes expostos a produtos de tabaco com aditivos têm maior chance de se tornar fumantes regulares na vida adulta. A nicotina age diretamente no sistema nervoso central em desenvolvimento, tornando o cérebro jovem mais vulnerável à dependência do que o de adultos.
Como os sabores funcionam como porta de entrada para o tabagismo entre jovens
A adição de aromas ao tabaco ganhou escala industrial com os dispositivos eletrônicos para fumar, como vapes e pods. Esses equipamentos permitem combinações quase ilimitadas de sabores. O apelo junto a adolescentes cresce porque os produtos remetem a experiências lúdicas — balas, sobremesas, refrigerantes.
Do ponto de vista neurológico, sabores agradáveis combinados com a liberação de dopamina provocada pela nicotina criam um reforço positivo que acelera o condicionamento. Jovens que iniciam o consumo por curiosidade ou pressão social desenvolvem dependência de nicotina em período muito mais curto do que ocorreria com o cigarro tradicional, segundo especialistas em saúde pública.
“Os aditivos de sabor funcionam como um véu sobre os danos reais do tabaco. Eles reduzem a irritação na garganta, tornam a fumaça mais suave e criam a impressão de que aquilo não é tão perigoso. Para um adolescente que está experimentando pela primeira vez, essa sensação é suficiente para que ele queira repetir.”
Especialista em Oncologia Preventiva — Instituto Nacional de Câncer (INCA)
O INCA identifica os principais grupos de produtos com aditivos aromáticos consumidos por jovens brasileiros:
- Cigarros mentolados: versão mais antiga dos aromatizados, com sensação refrescante que suaviza a fumaça e amplia a aceitação inicial
- Pods e cartuchos de vape com sabor: dispositivos eletrônicos com alta concentração de nicotina em sal, disponíveis em dezenas de aromas frutados e adocicados
- Narguilés e shishas aromatizadas: consumo coletivo frequente em festas e eventos, com percepção equivocada de que a água funcionaria como filtro protetor
- Cigarrilhas e mini-cigarros com sabor: embalagens coloridas e preços baixos que imitam o apelo visual de balas ou doces
- Tabaco de enrolar aromatizado: vendido como opção artesanal e natural, o que gera falsa sensação de produto mais saudável
Regulação no Brasil e o que o INCA defende como próximos passos
O Brasil tem uma das legislações antitabaco mais avançadas do mundo. A Anvisa regulação do tabaco no Brasil já estabeleceu restrições importantes à publicidade e à comercialização de produtos de tabaco. Mesmo assim, o INCA aponta lacunas na regulação sobre aditivos aromáticos que permitem a circulação de itens direcionados ao público jovem.
Dados internacionais indicam que países que proibiram aditivos de sabor registraram queda expressiva no número de jovens fumantes nos anos seguintes à implementação das normas. O INCA usa esses exemplos como base para suas recomendações às autoridades sanitárias brasileiras.
O instituto defende ainda campanhas de educação sobre tabagismo nas escolas aliadas ao fortalecimento da fiscalização do comércio ilegal de cigarros eletrônicos. O produto segue proibido pela Anvisa, mas permanece amplamente disponível em pontos de venda físicos e plataformas digitais. Para o INCA, a combinação entre regulação, educação e fiscalização efetiva é o caminho para proteger crianças e adolescentes brasileiros dos riscos do tabaco aromatizado.
