O uso de corticosteroides sem prescrição pode desencadear glaucoma e causar cegueira irreversível, alertam oftalmologistas. O acesso fácil a esses medicamentos em farmácias e a automedicação os tornam uma das causas evitáveis mais preocupantes de perda de visão no Brasil.

Os corticoides tratam inflamações, alergias e doenças autoimunes. Apresentados como colírios, pomadas, comprimidos, sprays nasais e injeções, funcionam bem quando prescritos corretamente. O perigo começa quando o paciente os usa por conta própria, por tempo prolongado ou em doses inadequadas, sem acompanhamento profissional.

O mecanismo pelo qual esses fármacos prejudicam a visão está documentado na literatura científica. O uso contínuo de corticosteroides, especialmente em colírios oftálmicos, pode elevar a pressão intraocular — fenômeno conhecido como hipertensão ocular induzida por corticoide. Quando essa pressão não recebe tratamento, ocorre dano progressivo ao nervo óptico, o que caracteriza o glaucoma. Sem intervenção, o quadro evolui para perda permanente do campo visual e, nos casos mais graves, cegueira total.

Como os corticoides provocam glaucoma e comprometem a visão

O glaucoma é a segunda maior causa de cegueira irreversível no mundo, atrás apenas da catarata. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 80 milhões de pessoas vivem com a doença, e parte significativa dos casos está associada ao uso inadequado de corticosteroides. No Brasil, cerca de 2% da população adulta tem glaucoma, mas a subnotificação dificulta medir o real alcance do problema.

Nem todos os pacientes que usam corticoides desenvolvem hipertensão ocular. Alguns grupos, porém, têm risco elevado: pessoas com histórico familiar de glaucoma, portadores de miopia alta, diabéticos e indivíduos acima de 60 anos. Nesses perfis, a probabilidade de resposta pressórica ao corticoide é maior, o que torna a automedicação ainda mais perigosa.

“O problema é que o aumento da pressão ocular causado pelo corticoide não dói, não provoca vermelhidão e muitas vezes não apresenta nenhum sintoma perceptível pelo paciente. Quando a pessoa percebe que algo está errado, o dano ao nervo óptico já pode ser irreversível.”

Dr. Marcos Ávila, oftalmologista e presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO)

A ausência de sintomas é o fator que torna o quadro tão grave. Diferentemente de outras reações adversas a medicamentos, que provocam desconforto imediato, a hipertensão ocular induzida por corticoide é silenciosa. O paciente pode usar o colírio por semanas ou meses sem perceber que destrói, progressivamente, seu nervo óptico.

⚠️ Atenção: Nunca utilize colírios, pomadas ou qualquer medicamento à base de corticosteroides sem prescrição médica. Mesmo produtos vendidos sem receita podem conter corticoides na fórmula. Leia sempre o rótulo e consulte um oftalmologista regularmente.

Principais corticoides associados ao risco ocular e como se proteger

Entre os corticosteroides mais ligados ao risco de glaucoma estão a dexametasona, a betametasona e a prednisolona, encontradas com frequência em colírios combinados com antibióticos — produtos populares para tratar conjuntivites e irritações oculares. Usar esses colírios sem diagnóstico correto figura entre os erros mais registrados em consultórios oftalmológicos do país.

  • Colírios combinados (corticoide + antibiótico): vendidos para tratar infecções oculares, mas contraindicados sem avaliação médica, pois podem mascarar infecções fúngicas e elevar a pressão ocular.
  • Pomadas dermatológicas com corticoide: aplicadas próximo aos olhos por iniciativa própria, podem ser absorvidas e causar efeitos sistêmicos e oculares.
  • Sprays nasais e corticoides inalatórios: associados a menor risco ocular que os colírios, mas ainda capazes de elevar a pressão intraocular em uso prolongado e em pacientes predispostos.
  • Corticoides orais e injetáveis: potencialmente os mais impactantes na pressão ocular quando usados por períodos superiores a duas semanas sem acompanhamento.

Para se proteger, especialistas recomendam que qualquer tratamento com corticosteroides inclua avaliações periódicas da pressão ocular — a chamada tonometria. Pacientes em uso crônico desses medicamentos devem consultar o oftalmologista ao menos a cada três meses, ou na frequência indicada pelo médico responsável.

📊 Contexto: O glaucoma afeta cerca de 2% da população adulta brasileira, segundo o Conselho Brasileiro de Oftalmologia. A OMS estima que mais de 80 milhões de pessoas vivam com a condição no mundo. A doença é a segunda maior causa de cegueira irreversível no planeta, e grande parte dos casos pode ser evitada ou controlada com diagnóstico precoce e uso racional de medicamentos.

Regulação, automedicação e o papel das farmácias no Brasil

A automedicação está enraizada na cultura brasileira. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Brasil está entre os maiores consumidores mundiais de medicamentos sem prescrição, e os corticoides figuram entre os produtos mais usados dessa forma. O acesso fácil em farmácias, somado à desinformação sobre os riscos, alimenta o uso inadequado.

A legislação brasileira exige receita médica para dispensar muitos corticosteroides, especialmente os de uso sistêmico. A fiscalização, porém, ainda é insuficiente em vários municípios, e a pressão comercial nas redes de farmácias costuma resultar na venda sem a exigência do documento. Campanhas do Ministério da Saúde e do CBO tentam reverter esse quadro com orientações ao público leigo e aos profissionais da atenção básica.

O uso racional de medicamentos é política prioritária do sistema de saúde brasileiro. A efetividade dessas iniciativas, porém, depende de maior engajamento de farmacêuticos, médicos generalistas e agentes comunitários. Integrar a atenção primária à oftalmologia pode identificar, com antecedência, pacientes em risco de glaucoma induzido por corticoide — e evitar que um problema tratável evolua para perda definitiva da visão.

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