Na cidade de Taiz, no Iêmen, morar próximo à linha de frente entre forças do governo e rebeldes Houthi obriga famílias a enfrentarem decisões difíceis. Embora a guerra tenha apresentado momentos de calmaria, a região permanece marcada por conflitos e riscos constantes.
Um Yousef, mãe solteira de quatro filhos, é um exemplo dessa realidade. Em seus 40 anos, ela não consegue pagar o aluguel médio de cerca de 130 dólares mensais para uma casa com três quartos no centro da cidade. Viúva, sustentando a família sozinha num país com aumento expressivo da pobreza desde o início da guerra há mais de uma década, ela enfrentou oito meses de mudanças e buscas por moradia na periferia de Taiz antes de aceitar uma casa próxima à linha de conflito por apenas 13 dólares ao mês.
Risco constante de snipers
Dois meses após a mudança, seu filho de 11 anos foi atingido por um tiro enquanto brincava ao ar livre. A mãe ainda não sabe a origem exata do disparo, mas ataques de snipers são comuns nessa região urbana. O terreno montanhoso de Taiz oferece diversos pontos elevados usados pelos atiradores, tornando a área especialmente perigosa.
Segundo um monitoramento das Nações Unidas, 66% das vítimas civis por tiros de sniper no Iêmen no último ano ocorreram em Taiz. Dos 21 casos registrados, nove eram crianças. Apesar da gravidade, o menino de Um Yousef recebeu atendimento hospitalar imediato e teve alta no dia seguinte.
Adaptação para segurança
Após o incidente, Um Yousef passou a adotar medidas para minimizar os riscos, como apagar as luzes dos cômodos visíveis à distância durante a noite e evitar que as crianças brinquem em áreas abertas, preferindo espaços protegidos atrás das casas.
Taiz é a província mais populosa do Iêmen, com quase 4,5 milhões de habitantes, incluindo mais de 400 mil deslocados internos, conforme Khalid Alwan, diretor do escritório de estatísticas local. O conflito causou danos totais ou parciais em mais de 10 mil residências, número que pode ser ainda maior devido à dificuldade de acesso a algumas áreas.
O alto custo da reconstrução impede que muitos moradores consertem suas casas, mesmo em zonas consideradas relativamente seguras, agravando a crise habitacional na cidade. Organizações humanitárias têm atuado para reparar danos, mas os esforços são insuficientes diante da dimensão do problema.
A Nahda Makers Organisation (NMO) já restaurou 2.389 residências em províncias como Taiz, Lahj, Hodeidah, Aden e Abyan, com a maioria das intervenções concentradas em Taiz. Apesar disso, estima-se que cerca de 4,8 milhões de deslocados internos ainda não conseguiram retornar às suas casas no país.
Impactos sociais e econômicos
Mohammed Saeed, de 53 anos, vive desde 2023 no bairro al-Thawrah, próximo à linha de frente em Taiz. Desempregado, ele não pode pagar aluguel e reside de forma gratuita, oferecendo-se como vigia. Ele descreve a guerra como um fator que elevou drasticamente os preços dos aluguéis, além de provocar um ambiente de medo constante devido aos tiroteios noturnos.
Para os filhos de Mohammed, o som das armas dificultou o sono inicialmente, mas eles acabaram se acostumando a essa realidade perigosa. O morador admite que, embora o momento atual esteja tranquilo, qualquer escalada no conflito os colocaria em risco direto de ficarem presos no fogo cruzado.
Outro caso é Khalid Abdulhadi, 46 anos, que conseguiu deixar a linha de frente por condição financeira, diferentemente de muitos que não têm essa opção.
A situação em Taiz evidencia como a guerra prolongada e a crise econômica impactam diretamente na segurança e condições de vida da população, forçando famílias vulneráveis a escolherem entre riscos e a ausência de moradia adequada.
Com informações de www.aljazeera.com.
