A região da Caxemira administrada pelo Paquistão enfrenta uma grave crise política após semanas de manifestações que exigem reformas no sistema eleitoral. Os protestos, liderados pelo Comitê Conjunto de Ação Popular de Jammu e Caxemira (JAAC), grupo proibido que reivindica mudanças nas leis eleitorais e maior apoio econômico para a região, já resultaram em dezenas de mortes e forçaram a realização das eleições em três fases distintas.

Contexto e origem dos protestos

O epicentro das manifestações é Rawalakot, sede da divisão de Poonch, em Azad Jammu e Caxemira (AJK), uma das duas regiões sob controle paquistanês, ao lado de Gilgit-Baltistão. Apesar de possuir uma legislatura própria, o AJK não é uma província completa do Paquistão devido à disputa territorial com a Índia. A capital, Muzaffarabad, está localizada a cerca de 30 km da Linha de Controle, a fronteira de fato entre as áreas controladas por Paquistão e Índia.

Os protestos começaram em junho, mas a discordância teve início em maio de 2026, quando fracassaram negociações entre o JAAC e o governo local sobre a extinção de 12 assentos reservados a refugiados caxemires que vivem fora da região. O JAAC critica que tais cadeiras permitem o controle político por partidos baseados no Paquistão e desviam verbas destinadas ao desenvolvimento local.

Conflitos e repressão

Em 5 de junho, o governo declarou o JAAC como organização proibida sob a Lei Antiterrorismo de Azad Jammu e Caxemira. A partir dessa data, houve suspensão dos serviços de internet e telefonia móvel em toda a região, e autoridades recomendaram restrição de viagens para não residentes entre 5 e 20 de junho.

Em 7 de junho, a Suprema Corte do AJK confirmou que os assentos para refugiados têm proteção constitucional e não podem ser eliminados sem uma emenda na constituição local. No dia seguinte, confrontos violentos entre manifestantes e forças de segurança em Rawalakot resultaram na morte de 11 pessoas, incluindo policiais e civis, conforme reportado pela imprensa local.

Durante o mês, greves gerais, manifestações e bloqueios continuaram na divisão de Poonch, elevando o número de mortos a mais de 20 até meados de junho. Os protestos são concentrados nessa área, enquanto o restante do AJK permanece tenso, porém sem grandes incidentes.

Processo eleitoral em meio à crise

Em resposta à situação, a Comissão Eleitoral do AJK anunciou um calendário de eleições em três fases: 27 de julho na divisão Mirpur, 2 de agosto em Muzaffarabad, incluindo os 12 assentos contestados, e 10 de agosto em Poonch.

A primeira etapa, em 27 de julho, teve participação e resultados iniciais favoráveis ao Paquistão Muslim League-Nawaz (PML-N), do primeiro-ministro Shehbaz Sharif. No mesmo dia, uma grande marcha organizada pelo JAAC saiu de Rawalakot em direção a Muzaffarabad, desencadeando novos confrontos com as forças de segurança.

A segunda fase, realizada em 2 de agosto, ocorreu sob recomendações de boicote de ativistas locais e com o acesso à internet ainda restrito, dificultando comunicação e cobertura da votação.

Reivindicações e reações oficiais

Os manifestantes exigem o fim da reserva de assentos para refugiados que residem fora da região, argumentando que apenas moradores de Azad Jammu e Caxemira deveriam ocupar as cadeiras legislativas. O governo paquistanês rebate as críticas, afirmando que as reservas são legais e importantes para a representação dos refugiados.

O diretor-geral da Imprensa do Exército do Paquistão, tenente-general Ahmed Sharif Chaudhry, declarou em coletiva que os caxemires ocupam um lugar especial no coração do Paquistão e acusou interesses indianos de fomentarem a instabilidade, acusação rejeitada por Nova Délhi. Ele ressaltou que o uso da força é prerrogativa exclusiva do Estado e condenou a violência de quaisquer grupos, ressaltando que o governo atua com sabedoria e restrição para preservar a ordem.

Dados sobre a violência e restrições tecnológicas

Estimativas locais indicam mais de 50 mortos desde o início dos protestos, incluindo sete membros das forças de segurança. Líderes do movimento afirmam que mais de 60 civis morreram em menos de dois meses, embora números oficiais não tenham sido divulgados.

Desde 5 de junho, o acesso à internet permanece limitado na região, conforme monitoramento de organizações independentes como NetBlocks e o setor de checagem de fatos iVerify, ligado ao Centro de Excelência em Jornalismo do Paquistão.

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Com informações de www.aljazeera.com.

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