Pesquisador da UFRPE identificou ligação direta entre o El Niño e a permanência de tubarões no litoral de Pernambuco. O estudo mostra que as alterações oceânicas provocadas pelo fenômeno influenciam o comportamento e a distribuição das espécies nas águas do estado, explicando por que os animais tendem a se fixar na região em determinados períodos.
O El Niño modifica a temperatura e a circulação das correntes marinhas no Atlântico Sul. Isso altera a disponibilidade de alimentos e as rotas de migração dos tubarões, criando condições para que os animais fiquem próximos à costa pernambucana por períodos mais longos do que o habitual — e elevando o risco de encontros com banhistas nas praias da região metropolitana do Recife.
A ligação entre variáveis climáticas e o comportamento do tubarão-touro (Carcharhinus leucas) e do tubarão-tigre (Galeocerdo cuvier), as duas espécies mais frequentemente envolvidas em incidentes no estado, abre caminho para o monitoramento preventivo. Com dados climáticos precisos, autoridades poderão antecipar períodos de maior risco e reforçar as medidas de segurança nas praias antes que os animais se aproximem.
Como o El Niño influencia o comportamento dos tubarões no litoral
O El Niño é um fenômeno climático cíclico caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Seus efeitos se estendem por todo o planeta, impactando padrões de chuva, temperatura e dinâmica oceânica em diferentes regiões, incluindo o litoral nordestino. No caso de Pernambuco, as mudanças provocadas pelo fenômeno parecem criar um ambiente propício para a concentração de tubarões próximo à costa.
A pesquisa da UFRPE aponta que os principais mecanismos envolvem fatores encadeados, que vão da base da cadeia alimentar marinha até o comportamento predatório dos animais:
- Alteração da temperatura da água: o El Niño modifica a temperatura superficial do mar, afetando a distribuição de peixes menores que servem de alimento para os tubarões.
- Mudança nas correntes marinhas: a circulação oceânica alterada desloca cardumes e presas para regiões costeiras, atraindo predadores de grande porte para perto da orla.
- Redução da visibilidade da água: mudanças na turbidez e na concentração de nutrientes alteram o ambiente costeiro e o comportamento de caça dos animais.
- Impacto no Canal de Santa Cruz: a construção do porto de Suape e as modificações no Canal de Santa Cruz já eram apontadas como fatores locais; o El Niño atuaria de forma combinada a essas interferências humanas.
A identificação desse padrão climático como variável relevante contribui diretamente para o monitoramento de tubarões, pois permite correlacionar dados históricos de ataques com os ciclos do fenômeno e construir modelos preditivos mais sólidos para a gestão do risco nas praias pernambucanas.
Histórico de ataques e impacto para a segurança nas praias de Pernambuco
O litoral sul do Recife é uma das áreas de maior risco de ataque de tubarão no mundo. Desde o início do monitoramento sistemático, na década de 1990, os ataques de tubarão em Pernambuco tornaram-se questão de saúde pública e de gestão territorial, mobilizando universidades, órgãos estaduais e organizações internacionais. O Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit) acompanha as ocorrências e coordena ações de prevenção, entre elas sinalização de praias e programas de educação para banhistas.
O estudo da UFRPE se soma a trabalhos anteriores sobre as espécies de tubarão no Atlântico Sul. Ao incorporar dados climáticos globais ao conjunto de análises já existente sobre fatores locais, a pesquisa amplia a compreensão das causas da permanência dos animais na costa pernambucana. Até agora, as explicações se concentravam na modificação do habitat pelo porto, no descarte de resíduos orgânicos no mar e na sobrepesca de espécies que competem com os tubarões por alimento.
A combinação entre fatores humanos locais e fenômenos climáticos de escala global indica que o problema exige uma abordagem multidisciplinar. A pesquisa sobre El Niño com foco em ecologia marinha pode embasar políticas públicas mais eficazes — como o escalonamento de alertas às praias nos anos em que o fenômeno se manifesta com maior intensidade e o reforço das equipes de monitoramento nesses períodos.
O próximo passo da linha de pesquisa da UFRPE é cruzar os registros históricos de incidentes com os dados dos ciclos do El Niño ao longo das últimas décadas. Esse cruzamento vai validar estatisticamente a correlação identificada. Se confirmada, a metodologia pode originar um sistema de alerta climático-ambiental integrado para a gestão da segurança no litoral do estado.
