Os Estados Unidos aplicaram tarifas alfandegárias de 25% sobre produtos brasileiros, em uma decisão que surpreende dado o histórico comercial entre os dois países. Apesar das medidas restritivas, o Brasil acumula um déficit de US$ 144 bilhões em bens ao longo dos últimos 40 anos nas relações com os americanos.
Dados do Departamento do Censo dos EUA revelam que, em 26 dos 41 anos analisados, o saldo comercial favoreceu Washington. Entre 2000 e 2025, considerando bens e serviços, os americanos tiveram superávit de US$ 480 bilhões com o Brasil, conforme números do Departamento de Análise Econômica (BEA) dos EUA.
Reconhecimento do superávit e justificativas das tarifas
Durante uma sabatina no Senado americano, Daniel Perez, indicado para a embaixada dos EUA em Brasília, admitiu o superávit significativo do país, mas não justificou as novas tarifas impostas. Sobre a medida de 25%, afirmou: “Essa tarifa foi implementada quando eu estava dormindo. Vou me informar melhor nas próximas semanas”.
Jamieson Greer, chefe do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), também evitou relacionar o superávit americano com a legitimidade da aplicação das tarifas.
Comércio bilateral e evolução histórica
O comércio entre Brasil e EUA apresenta variações ao longo do tempo, com intensificação nas últimas quatro décadas. Entre 1985 e 1995, o Brasil chegou a registrar saldos positivos em alguns períodos. No governo Fernando Henrique Cardoso, a balança comercial começou a oscilar, com aumento da importação de aeronaves, veículos, equipamentos eletrônicos e telecomunicações dos EUA.
O Brasil retomou vantagem em 2002, atingindo um pico em 2005, impulsionado por exportações de minério de ferro, ouro, petróleo e café. A partir de 2008, ano da crise financeira americana, os EUA mantêm saldo positivo contínuo na balança de bens com o Brasil.
Os recordes de superávit americano foram registrados em 2014, com US$ 16,5 bilhões, e em 2021, com US$ 15,75 bilhões, ambos valores nominais. Em 2025, o déficit brasileiro chegou a US$ 14,4 bilhões, mais que o dobro do registrado em 2024.
Setor de serviços e impacto das tarifas
No segmento de serviços, os EUA acumulam superávit desde 1999, alcançando US$ 27,4 bilhões em 2025, o maior dos últimos 26 anos. Os dados de 2026, relativos aos primeiros cinco meses, indicam que esse valor deve aumentar ainda mais, posicionando o Brasil como o sexto maior gerador de superávit para os americanos.
Mesmo com esse resultado expressivo, o Brasil é o segundo país mais taxado pelos EUA, com tarifa média de 18,2%, atrás apenas da China.
Motivações das tarifas e resposta brasileira
Para o economista Tomás Marques, do German Institute for Global and Area Studies (GIGA), o superávit dos EUA indica que as tarifas não têm como objetivo corrigir um déficit comercial, mas sim reorganizar os fluxos comerciais diante da perda de competitividade americana em setores como tecnologia.
A lista de exceções do USTR inclui cerca de 2.100 itens, como commodities agrícolas, minerais e metais, que não estariam relacionados às investigações sobre práticas comerciais.
Segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Rosa, somente 18% das exportações brasileiras para os EUA são afetadas pelas novas tarifas. O governo brasileiro rejeita as medidas e retoma o discurso sobre a necessidade de reciprocidade nas relações comerciais.
