Walkyria Santos e o sanfoneiro Flávio José protestaram publicamente contra a desvalorização do forró e a disparidade de cachês nas principais festas de São João do Nordeste no primeiro fim de semana de junho de 2026. A ex-vocalista da Banda Magníficos desabafou em palcos de Pernambuco e da Paraíba no sábado (6), enquanto o forrozeiro baiano cancelou toda a agenda de shows no estado.
Os episódios acenderam um debate que já fervia nos bastidores das festas juninas: a presença crescente do sertanejo nos polos tradicionais de forró e a diferença entre os valores pagos aos dois gêneros. Para artistas e fãs do gênero nordestino, o movimento ameaça diretamente a identidade cultural das comemorações de junho.
A sequência de protestos reuniu reações nas redes sociais, mobilizou fãs e jogou luz sobre uma tensão que se arrasta há anos entre produtores culturais, prefeituras e os músicos que deram origem às festas juninas como são conhecidas hoje.
Walkyria Santos compara palcos e questiona valorização do forró em Caruaru e Campina Grande
A primeira declaração de Walkyria Santos veio na tarde de sábado (6), no palco do Alto do Moura, em Caruaru (PE), polo reconhecido por preservar as raízes do forró pé-de-serra. Diante da recepção calorosa da plateia, a cantora fez uma comparação direta com o Pátio de Eventos Luiz Gonzaga, considerado o principal espaço da cidade durante o ciclo junino.
“Aqui o povo sabe o que é forró de verdade. Lá no palco principal, quem manda é outro ritmo, e a gente sabe muito bem qual é. O cachê que pagam pra esses artistas de fora não tem comparação com o que a gente recebe.”
Walkyria Santos, cantora e ex-vocalista da Banda Magníficos
Horas depois, já em Campina Grande (PB), cidade que disputa com Caruaru o título de maior São João do mundo, Walkyria repetiu as críticas. A cantora voltou a comparar o espaço cedido ao forró com o reservado ao sertanejo na programação oficial das festas e disse que a situação representa um retrocesso para a cultura nordestina.
Segundo informações que circularam entre produtores da região, a diferença de cachê entre artistas sertanejos de primeiro escalão e nomes consolidados do forró pode chegar a proporções de três para um nas contratações municipais, embora os valores exatos não tenham sido confirmados pelas prefeituras envolvidas.
Flávio José cancela shows na Bahia e denuncia desvalorização da cultura local
O sanfoneiro Flávio José adotou postura ainda mais contundente: cancelou todas as apresentações agendadas em solo baiano durante o período junino de 2026. Um dos nomes mais respeitados do forró nordestino, ele classificou a situação como desvalorização sistemática da cultura local.
“Não é possível que a festa que nasceu aqui, que tem a nossa cara, o nosso suor, a nossa história, pague menos pra quem a construiu do que pra quem chegou ontem trazendo outro ritmo. Isso não é só uma questão de dinheiro, é uma questão de respeito.”
Flávio José, cantor e sanfoneiro
O cancelamento gerou apoio de fãs nas redes sociais, mas também críticas de quem viu na decisão um prejuízo ao público que aguardava as apresentações. Até o momento, não há informação sobre reprogramação dos shows ou negociação com os organizadores dos eventos afetados.
O caso de Flávio José ilustra o que artistas e pesquisadores da cultura popular apontam há anos: à medida que as festas juninas se tornam eventos de grande porte com patrocínio privado e transmissão ao vivo, a lógica de mercado passa a sobrepor critérios culturais na escolha dos headliners.
Disputa entre forró e sertanejo revela tensão antiga nas festas juninas
A presença do sertanejo universitário nas festas de São João não é novidade. Ao longo dos anos 2010 e início dos anos 2020, prefeituras de todo o Nordeste passaram a contratar duplas e artistas do gênero para atrair públicos mais jovens e aumentar o fluxo turístico. O argumento era econômico: mais público, mais receita para o comércio local.
Para defensores do forró pé-de-serra, essa estratégia tem um custo cultural alto. O ritmo criado e popularizado por Luiz Gonzaga, patrimônio imaterial de estados como Pernambuco, Paraíba e Ceará, vai sendo empurrado para palcos menores, horários menos nobres e cachês proporcionalmente inferiores nas próprias festas que ele ajudou a construir.
Os protestos de Walkyria Santos e Flávio José reabriram o debate sobre cotas ou diretrizes culturais nas contratações municipais para festas juninas, garantindo espaço mínimo para artistas e gêneros originários da região. São João do Nordeste A pressão dos artistas, amplificada pelas redes sociais, deve influenciar negociações para os próximos ciclos juninos, especialmente em municípios que dependem de emenda parlamentar ou verba estadual para bancar as programações.
- Walkyria Santos: desabafou em dois estados diferentes no mesmo dia, comparando cachês e espaço cedido ao forró nos polos principais
- Flávio José: cancelou agenda completa de shows na Bahia em protesto contra a desvalorização do forró local
- Polo Alto do Moura (Caruaru-PE): palco do primeiro desabafo de Walkyria, reconhecido por preservar o forró de raiz
- Campina Grande (PB): segunda cidade onde a cantora repetiu as críticas durante o mesmo fim de semana
- Sertanejo nos polos principais: presença crescente nas programações juninas é apontada pelos artistas como causa direta da disparidade de cachês
Com o ciclo junino de 2026 ainda em curso e as redes sociais amplificando cada declaração, o debate sobre espaço e remuneração do forró nas festas juninas pressiona organizadores, patrocinadores e gestores públicos a reverem critérios de contratação e distribuição de recursos nas principais festas do Nordeste brasileiro.
