A goleira Natascha Honegger, de 28 anos, viveu quatro meses acreditando que poderia morrer em campo. O diagnóstico, feito durante exames de pré-temporada em 2022, apontava para a síndrome de QT Longo, uma forma de arritmia cardíaca potencialmente fatal. Meses depois, a atleta, hoje titular do Palmeiras feminino, descobriu que tudo não passou de um erro da clínica responsável pelos exames.

A revelação, feita agora pela primeira vez em detalhes, expõe o drama pessoal de uma das goleiras mais consistentes do futebol feminino nacional e a fragilidade nos protocolos de saúde para atletas de alto rendimento.

Na época, Natascha defendia o Corinthians. Ao receber o laudo, pediu sigilo ao clube e carregou o peso sozinha, sem contar nem para os pais. O medo era real. A determinação de continuar jogando falou mais alto.

— Não contei para minha mãe, nem meu pai. Fiquei depressiva, porque para mim o mundo caiu. Treinava escondido e decidi: mesmo se eu tiver isso, quero continuar jogando. Porque se acontecer, pelo menos iria ser com uma coisa que amo, sabe? A gente nunca sabe quando vem a morte, então não queria limitar minha vida — disse a goleira.

Quatro meses entre o medo e a descoberta do erro

O período foi marcado por treinos clandestinos e uma batalha silenciosa contra a depressão. Natascha descreve a sensação de ouvir do médico que poderia morrer a qualquer momento dentro de um campo de futebol como um soco no estômago.

A síndrome de QT Longo é uma alteração no ritmo elétrico do coração que pode provocar desmaios e, nos casos mais graves, parada cardíaca súbita durante exercícios intensos. Quando verdadeiro, o diagnóstico pode encerrar carreiras profissionais.

No caso de Natascha, a sentença era falsa. Uma segunda avaliação revelou que o laudo original estava errado: a clínica cometeu uma falha nos exames de pré-temporada. A goleira não tinha a síndrome e estava apta a jogar normalmente.

O alívio veio com revolta. Toda a angústia, o isolamento emocional, os treinos às escondidas e a depressão poderiam ter sido evitados com um procedimento médico feito com o rigor necessário. A experiência mudou sua forma de enxergar a carreira e a vida fora dos gramados.

Leila Pereira como referência nos estudos de gestão esportiva

No Palmeiras, Natascha encontrou fora das quatro linhas um novo objetivo: a gestão esportiva. A inspiração vem de dentro do próprio clube.

A trajetória de Leila Pereira, presidente do Palmeiras, serve de referência para seus estudos em economia com foco no esporte. Para a goleira, a dirigente representa o tipo de profissional que alia visão administrativa a uma relação genuína com o futebol.

— Sou fã dela — disse Natascha, ao falar sobre a influência de Leila em sua decisão de buscar formação na área de gestão esportiva.

A escolha pela economia aplicada ao esporte acompanha um movimento crescente entre atletas brasileiros que se preparam para a vida após a carreira ativa, ou buscam funções administrativas em paralelo ao que fazem em campo.

Trajetória marcada por superação

Natascha Honegger construiu sua carreira ao longo de mais de uma década no futebol feminino nacional. A passagem pelo Corinthians, clube onde viveu o episódio do laudo equivocado, antecedeu a chegada ao Palmeiras.

A mudança de clube representou um novo começo. O futebol feminino brasileiro ganhou visibilidade e investimento nos últimos anos, e o Palmeiras figura entre os clubes que mais apostaram na modalidade. Natascha chegou ao clube alviverde e voltou a jogar sem o peso de um diagnóstico falso sobre os ombros.

Aos 28 anos, a goleira acumula experiência suficiente para ser referência na posição, mas também carrega histórias que vão além das defesas e dos títulos. Treinar às escondidas acreditando que cada sessão poderia ser a última diz muito sobre seu perfil.

A revelação do episódio serve de alerta para clubes, comissões técnicas e entidades do futebol sobre a responsabilidade que envolve os exames médicos de atletas profissionais. Um laudo errado custou quatro meses de sofrimento desnecessário a uma jogadora no auge da carreira.

Com a carreira ativa no Palmeiras e os estudos de economia em andamento, Natascha Honegger constrói uma trajetória que vai além do que acontece dentro das quatro linhas, com o olhar voltado para o que vem depois dos gramados.

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