Na cidade de Rampur, no estado indiano de Uttar Pradesh, mais de 100 pessoas se reúnem em um protesto pacífico, enfrentando o calor intenso de julho enquanto defendem a permanência dos prédios da Mohammad Ali Jauhar University, instituição fundada pelo político muçulmano Azam Khan. A universidade, localizada a cerca de 200 km de Nova Delhi, está sob ameaça de ter 38 de suas 40 construções demolidas por supostas irregularidades na aprovação das obras.
Acusações e ordem de demolição
Segundo a administração do distrito de Rampur, governado pelo partido Bharatiya Janata Party (BJP), apenas duas das estruturas, incluindo um bloco planejado para um colégio médico, possuem documentação legal para a construção. Em 15 de julho, a administração emitiu um mandado exigindo que os edifícios considerados ilegais fossem derrubados até o dia 5 de agosto. Caso a universidade não cumpra a ordem, o governo prometeu iniciar a demolição com uso de máquinas e cobrar os custos posteriormente.
Na última segunda-feira, a administração estadual concedeu uma suspensão temporária da ordem, porém sem confirmar o cancelamento definitivo da demolição. O vice-reitor Zaheeruddin explicou que o adiamento apenas impede a execução da demolição até o prazo estabelecido pela Rampur Development Authority (RDA), mas a universidade busca uma decisão judicial que anule totalmente a ordem.
Reação da comunidade acadêmica
Com cerca de 3 mil estudantes cursando diversas áreas no campus de 250 acres, a medida pegou a comunidade universitária de surpresa. Desde a notificação, alunos, ex-alunos e moradores locais mantêm uma vigília permanente em frente à entrada principal, protestando contra o ataque à instituição. Usama Tayyab, ex-aluno formado em 2019, questiona: “Se um ministro federal renunciou após pressão de um movimento estudantil, por que o governo de Uttar Pradesh não poderia recuar da demolição do Jauhar University diante da mobilização dos estudantes?”
Contexto político e histórico
Uttar Pradesh, com aproximadamente 240 milhões de habitantes, está sob o governo do BJP desde 2017. O chefe do executivo estadual, Yogi Adityanath, é conhecido por sua postura dura contra a minoria muçulmana, envolvendo-se em discurso e políticas consideradas discriminatórias.
Azam Khan, de 77 anos, além de fundador da universidade, é uma figura política proeminente no estado e um dos fundadores do Samajwadi Party, partido com forte base entre os 38 milhões de muçulmanos locais e entre as castas hindus menos favorecidas. Khan acumulou mandatos legislativos e cargos de ministro ao longo de sua carreira, além de ser uma voz constante de oposição ao BJP.
As raízes educacionais de Khan remontam à sua formação em Direito na Aligarh Muslim University, maior instituição voltada a minorias da Índia, localizada há cerca de 160 km de Rampur. Ele ganhou destaque como líder estudantil e político combativo contra a influência tradicional da antiga família real local.
Processos judiciais e acusações
Após a posse do governo liderado por Adityanath, Khan foi alvo de quase 100 processos, muitos relacionados à universidade, com acusações que vão desde apropriação de terras até falsificação e incitação ao ódio. Ele chegou a cumprir mais de dois anos de prisão antes de receber liberdade condicional em 2022. Em 2023, foi condenado junto à esposa e ao filho por uso de certidões de nascimento falsas.
Atualmente, cumpre pena de dois anos decretada em maio por declarações consideradas provocativas durante as eleições gerais de 2019, além de uma condenação por documentos falsos relativos a imposto de renda. Seus apoiadores afirmam que as acusações têm motivação política, afirmação negada pelo governo estadual.
Opiniões políticas sobre a demolição
Javed Ali Khan, deputado do Samajwadi Party, classificou a ordem de demolição como uma retaliação política do atual governo, que, segundo ele, é contrário à educação e deseja manter a população sem acesso ao conhecimento. Ele destaca que a universidade foi fundada por Azam Khan, teve sua pedra fundamental lançada por Mulayam Singh, líder histórico do partido, foi inaugurada por Akhilesh Yadav, ex-chefe do governo estadual, e atende principalmente a minorias.
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Com informações de www.aljazeera.com.
