A taxa de inadimplência bancária no Brasil atingiu 4,4% em abril de 2026, o maior patamar desde o início da série histórica revisada do Banco Central, em março de 2011. O dado foi divulgado nesta quinta-feira (28) pela autoridade monetária. O recorde chegou às vésperas do lançamento do Desenrola 2.0, o novo programa federal de renegociação de dívidas iniciado em maio.

O índice empata com o registrado em fevereiro deste ano, quando o indicador já havia acendido o sinal de alerta entre economistas e gestores de crédito. Dois picos no mesmo nível em dois meses reforçam a percepção de que o mercado de crédito atravessa um ciclo de estresse elevado, com parcela crescente de tomadores incapaz de honrar compromissos financeiros.

O indicador do Banco Central considera operações com atraso superior a 90 dias, tanto para pessoas físicas quanto para empresas. Esse critério é o mais representativo do chamado crédito em situação crítica. Dívidas nessa faixa têm baixa probabilidade de recuperação sem algum tipo de renegociação.

O calote elevado pressionou o governo a antecipar medidas. O Desenrola 2.0 foi estruturado para oferecer saída a devedores que, sem um programa de renegociação, dificilmente conseguiriam sair do vermelho por conta própria.

Pessoas físicas puxam alta do calote

Entre as famílias brasileiras, a inadimplência avançou de 5,3% em março para 5,4% em abril, o nível mais elevado desde maio de 2012, quando o índice estava em 5,5%. Os consumidores seguem como o principal vetor de pressão sobre a qualidade da carteira de crédito dos bancos.

O avanço de 0,1 ponto percentual consolida uma trajetória de deterioração observada nos últimos meses. Modalidades como crédito rotativo do cartão, crédito pessoal não consignado e financiamento de veículos concentram os maiores índices de atraso entre os consumidores — padrão que se repete desde o ciclo anterior de alta do calote.

Analistas ouvidos pelo mercado apontam que a combinação de juros elevados, comprometimento de renda crescente e inflação persistente em itens essenciais deteriorou a capacidade de pagamento de uma fatia considerável da população, especialmente nas classes de renda mais baixa.

O nível de endividamento das famílias também permanece alto. Em abril, a relação entre o saldo total das dívidas e a renda acumulada em doze meses ficou em 49,8%, leve queda frente aos 49,9% de março. Mesmo com a pequena melhora, o patamar indica que quase metade de tudo que os brasileiros ganham em um ano já está comprometido com dívidas.

Empresas mantêm inadimplência no maior nível em oito anos

No segmento corporativo, a inadimplência ficou estável em 2,8% em abril, o mesmo índice de março. O dado representa o maior patamar para as empresas desde maio de 2018, quando o indicador estava em 3%.

Especialistas olham com cautela para a estabilidade. A manutenção do índice num nível historicamente alto indica que o ambiente de crédito corporativo ainda não encontrou um ponto de reversão, sobretudo para pequenas e médias empresas. Essas companhias têm menor acesso a linhas de crédito mais baratas e prazos mais longos, o que limita sua capacidade de renegociar passivos em momento de aperto financeiro.

Varejo, construção civil e serviços figuram entre os setores mais afetados em ciclos de calote elevado. A pressão sobre essas atividades tende a se refletir também no mercado de trabalho e na geração de renda das famílias.

O que levou o Brasil a esse patamar

A escalada da inadimplência tem raízes num ciclo de crédito que se expandiu de forma acelerada nos anos anteriores. Programas governamentais e a digitalização do sistema financeiro facilitaram o acesso ao crédito para camadas historicamente desbancarizadas. Com a alta dos juros promovida pelo Banco Central para conter a inflação, o custo do crédito disparou.

A taxa Selic elevada encarece o crédito e reduz a margem de manobra de quem já carrega volume alto de compromissos financeiros. Esse mecanismo cria um ciclo que alimenta o calote. Além disso, a inflação persistente em categorias como alimentação e energia elétrica corrói o poder de compra das famílias e reduz a parcela da renda disponível para o pagamento de dívidas.

Desenrola 2.0 como resposta à crise do crédito

O governo federal lançou o Desenrola 2.0 em maio reconhecendo que a situação do crédito exige intervenção direta. O programa oferece condições facilitadas para que devedores renegociem dívidas em atraso, com descontos, parcelamentos estendidos e a possibilidade de saída do cadastro negativo das entidades de proteção ao crédito.

A expectativa das autoridades é que o programa reduza os índices de calote ao longo dos próximos meses, alivie o endividamento das famílias e recoloque consumidores no mercado de crédito em condições mais sustentáveis. O resultado dependerá do volume de adesões e da capacidade dos bancos de absorver as renegociações sem impacto severo em seus balanços.

Os próximos dados do Banco Central, relativos a maio, serão o primeiro termômetro real do impacto do Desenrola 2.0 sobre a trajetória de calote. Se o programa mobilizar um número alto de devedores, o indicador pode começar a recuar a partir do segundo semestre de 2026.

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