Eleição e contexto

O Hamas anunciou a escolha de Khalil al-Hayya como novo chefe do seu bureau político. A decisão ocorreu na segunda-feira, após a morte de Yahya Sinwar, líder anterior, morto pelo Exército israelense na Faixa de Gaza em 2024. Sinwar havia assumido depois do assassinato político de Ismail Haniyeh, também em 2024. Al-Hayya havia sobrevivido a uma tentativa de assassinato israelense no Qatar no ano anterior.

A nomeação veio após um segundo turno na votação do Conselho Geral de Shura do Hamas, em disputa acirrada contra o ex-líder Khaled Meshaal, já que nenhum dos dois atingiu a maioria necessária na primeira fase. A eleição segue o modelo interno de 2021, que determina que a liderança reflita as principais áreas geográficas do grupo, incluindo Gaza, Cisjordânia ocupada e a diáspora.

Trajetória pessoal e política

Nascido em Gaza em 5 de novembro de 1960, Khalil al-Hayya cresceu em uma família conservadora marcada pela ocupação israelense após a guerra de 1967. Sua experiência com invasões militares e prisões familiares moldou sua consciência política desde jovem. Em 1980, conheceu o fundador do Hamas, Sheikh Ahmed Yassin, e entrou para o ativismo organizado.

Formado em estudos islâmicos, com graduação na Universidade Islâmica de Gaza (1983), mestrado na Universidade da Jordânia (1986) e doutorado em ciências do hadith no Sudão (1997), atuou na área acadêmica antes de se dedicar integralmente à política.

Foi um dos fundadores do Hamas em 1987 e sofreu várias prisões e torturas durante a Primeira Intifada. Em 2006, elegeu-se para o Conselho Legislativo Palestino e liderou a bancada parlamentar do Hamas.

Atuação política e diplomática

Nos últimos 20 anos, al-Hayya ocupou funções importantes dentro da organização, incluindo vice-liderança em Gaza e chefia do departamento de relações árabes e islâmicas. Também liderou negociações de cessar-fogo após os conflitos de 2012 e 2014 entre Israel e Gaza.

Desde o início da guerra em outubro de 2023, ele foi o principal negociador do Hamas em conversações indiretas para troca de prisioneiros e cessar-fogo, mediadas pelo Qatar e Egito. Baseado principalmente no Qatar, onde o Hamas mantém seu escritório político desde 2012, conseguiu contornar o bloqueio imposto a Gaza para coordenar esforços diplomáticos regionais.

Em novembro de 2023, comandou uma delegação ao Líbano para encontros com o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah. Sobreviveu a um ataque de drone em janeiro de 2024 em Beirute, que matou o vice-chefe político Saleh al-Arouri.

Perdas pessoais e continuidade na liderança

Al-Hayya enfrentou múltiplas tentativas de assassinato e perdas familiares significativas. Em 2007, um ataque aéreo israelense destruiu sua casa, causando a morte de sete parentes próximos, entre eles dois irmãos. Em 2008, seu filho Hamza, integrante da ala militar do Hamas, foi morto por drone. Em 2014, perdeu o filho mais velho, a esposa e três filhos em ataques israelenses.

Em setembro de 2025, sobreviveu a outro ataque em Doha, capital do Qatar, que matou seu filho Humam, seu diretor de gabinete e outros membros de sua segurança. Ainda este ano, um terceiro filho, Azzam, faleceu devido a ferimentos causados por ataques em Gaza.

Mesmo depois de tantas perdas, al-Hayya manteve-se uma figura central na liderança do Hamas, agora eleito para completar o mandato até 2027. Sua eleição durante um conflito armado ilustra a forte institucionalização do grupo, que optou por realizar uma votação formal em vez de nomeações rápidas, segundo o analista político Abdullah Aqrabawi.

O processo de escolha do líder do bureau político é exclusivo do Conselho Geral de Shura, conforme as regras internas do Hamas. Segundo o analista Wissam Afifa, em períodos de crise, o movimento aciona automaticamente seus planos de emergência para garantir a continuidade administrativa e política.

Com informações de www.aljazeera.com.

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