O médico legista responsável pela análise do corpo de Henry Borel disse em depoimento judicial que o menino, de 4 anos, tinha lesões corporais múltiplas e graves incompatíveis com acidente doméstico. O laudo sustenta a tese de homicídio doloso pelo qual o vereador afastado Dr. Jairinho e a mãe da criança, Monique Medeiros, respondem a julgamento.
Henry morreu na madrugada de 8 de março de 2021, no apartamento da Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. O laudo pericial registrou hemorragia interna, laceração no fígado e hematomas distribuídos pelo corpo. Para o especialista, só um trauma físico intencional seria capaz de provocar esse quadro em uma criança saudável dessa idade.
A defesa insistiu, desde o início das investigações, que Henry teria caído acidentalmente dentro de casa. O legista descartou essa possibilidade. A distribuição, a profundidade e a natureza das marcas indicam agressões repetidas — não um episódio isolado de queda.
Lesões documentadas na necropsia contradizem versão da defesa
No depoimento, o perito detalhou os achados que levaram à conclusão de morte por ação violenta. Os principais elementos descritos foram:
- Laceração hepática: ruptura no fígado causada por impacto contundente de alta energia, incompatível com quedas de baixa altura típicas de crianças em ambiente doméstico.
- Hemorragia interna extensa: sangramento abdominal severo que, segundo o perito, foi determinante para o óbito e exige força física considerável para ser provocado.
- Hematomas em diferentes estágios de cicatrização: marcas com colorações distintas indicam agressões ao longo de dias ou semanas, não em um único momento.
- Ausência de marcas de defesa: padrão frequente em vítimas infantis que não conseguem se proteger de golpes desferidos por adultos.
“As lesões encontradas no corpo da criança, em especial a laceração hepática e os hematomas em diferentes fases de evolução, não são compatíveis com acidente doméstico. O conjunto dos achados indica trauma contuso de repetição.”
Médico Legista, Instituto Médico-Legal do Rio de Janeiro
Os hematomas em múltiplos estágios de cicatrização são um dos pontos centrais do laudo para os promotores. Eles indicam que Henry sofreu agressões em datas distintas antes de morrer. Esse dado corrobora depoimentos de testemunhas que relataram comportamento agressivo de Dr. Jairinho em relação à criança em ocasiões anteriores.
Julgamento do caso Henry Borel: o que está em jogo
O processo tramita na Justiça do Rio de Janeiro. Jairinho e Monique respondem por homicídio triplamente qualificado — motivo torpe, meio cruel e recurso que impossibilitou a defesa da vítima. Jairinho já havia sido condenado anteriormente por coação de testemunhas, delito apurado em fase anterior do mesmo processo.
Ao longo da instrução, o Ministério Público do Rio de Janeiro reuniu evidências além da perícia médica: depoimentos de ex-namoradas de Jairinho relatando episódios semelhantes de violência contra filhos delas, laudos psicológicos, registros de câmeras e mensagens de celular. A acusação sustenta que Monique sabia das agressões e não agiu para proteger o filho, sendo coautora do crime.
Uma condenação pode resultar em penas superiores a 30 anos de reclusão para cada réu, conforme as qualificadoras da denúncia. O depoimento do legista, ao rebater tecnicamente a tese do acidente, fortalece a acusação e deve pesar sobre os jurados no momento da votação.
Os próximos passos incluem a oitiva de testemunhas arroladas pela defesa e, depois, os debates finais entre as partes antes do veredicto popular. O resultado definirá o destino judicial de Jairinho e Monique no caso que reacendeu o debate nacional sobre violência contra crianças.
