O Brasil perde centenas de mulheres por ano em decorrência de complicações na gravidez, no parto e no puerpério. Especialistas classificam o quadro como uma tragédia de saúde pública em grande parte evitável. Os índices de mortalidade materna permanecem elevados em comparação a países com estrutura econômica semelhante, revelando desigualdades profundas no acesso e na qualidade do sistema de saúde pública brasileiro.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define morte materna como o óbito de uma mulher durante a gestação ou até 42 dias após o término da gravidez, causado por fatores relacionados ou agravados pela gravidez. No Brasil, as principais causas continuam sendo síndromes hipertensivas, hemorragias, infecções puerperais e complicações de aborto — todas com protocolos de tratamento bem estabelecidos e amplamente disponíveis na medicina moderna.

A maior parte dessas mortes poderia ser evitada com pré-natal adequado, assistência qualificada no parto e cuidados eficientes no puerpério. A falha em qualquer uma dessas etapas pode transformar uma gestação saudável em risco de vida.

A subnotificação agrava o cenário. Parte dos óbitos maternos não é registrada corretamente nas declarações de óbito, o que faz com que os números oficiais fiquem aquém da realidade enfrentada pelas mulheres brasileiras, especialmente nas regiões com menor infraestrutura de saúde.

Desigualdade racial e regional aprofunda o problema

Os dados sobre saúde materna mostram que a morte durante a gestação não atinge todas as mulheres da mesma forma. Mulheres negras morrem proporcionalmente muito mais do que mulheres brancas por causas maternas. Pesquisadores associam essa disparidade ao racismo estrutural no atendimento em saúde e às condições socioeconômicas mais vulneráveis enfrentadas por essa população.

A diferença regional também é marcante. Estados com menor cobertura de serviços de saúde, menos leitos obstétricos e maior dificuldade de acesso geográfico registram taxas mais altas de óbitos maternos. Em muitas localidades, gestantes precisam percorrer longas distâncias para chegar a uma maternidade de referência, o que eleva o risco em emergências obstétricas.

O acesso à saúde nas periferias urbanas e nas zonas rurais segue sendo um dos principais entraves para reduzir a mortalidade materna. Falta transporte adequado, as unidades de saúde estão superlotadas e escasseiam profissionais especializados em obstetrícia. Esse conjunto de obstáculos coloca gestantes em risco todos os dias.

Organizações de direitos das mulheres e entidades médicas cobram do poder público um plano nacional com metas claras para enfrentar o problema. A demanda inclui mais investimento em maternidades, ampliação do pré-natal e programas de formação continuada para profissionais da atenção básica.

Pandemia e seus reflexos na saúde obstétrica

A pandemia de Covid-19, que afetou o país entre 2020 e 2022, deixou marcas nos índices de saúde obstétrica. Durante o período mais crítico, o número de mortes maternas subiu, impulsionado tanto pelo impacto direto do vírus em gestantes quanto pela desestruturação dos serviços de saúde, que deslocaram recursos e profissionais para a emergência sanitária.

Mesmo após a fase aguda da pandemia, os serviços obstétricos não se recuperaram de imediato. Filas para consultas de pré-natal, cancelamento de exames e dificuldades de agendamento persistiram por meses, afetando o acompanhamento de gestantes em todo o país.

Segundo especialistas em saúde pública no Brasil, os indicadores de algumas regiões ainda não voltaram aos patamares anteriores à pandemia.

O que dizem os compromissos internacionais

O Brasil assinou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, que incluem a meta de reduzir a razão de mortalidade materna global para menos de 70 mortes por 100 mil nascidos vivos até 2030. O país ainda está distante desse patamar, o que exige aceleração nas políticas públicas voltadas à saúde da mulher.

A Rede Cegonha, criada pelo Ministério da Saúde para melhorar a atenção ao pré-natal, ao parto e ao puerpério, representou avanços concretos. Especialistas apontam, porém, que a continuidade e o financiamento adequado desses programas são fundamentais para que os resultados se sustentem.

O setor de saúde considera prioritárias três medidas: padronizar protocolos clínicos nas maternidades públicas e privadas, ampliar o número de enfermeiras obstétricas e garantir insumos básicos para o manejo de emergências. São ações diretas, com custo conhecido e impacto comprovado.

Com 2030 se aproximando, 2026 representa uma virada para que o governo federal e os estados avaliem o que foi feito e intensifiquem as ações. Para especialistas e organizações de saúde, cada morte materna evitável indica o quanto o sistema ainda precisa avançar para garantir às mulheres brasileiras o direito de sobreviver à maternidade.

Compartilhar.

Meu nome é Felipe Bastos e sou redator especializado na produção de conteúdo jornalístico. Acompanho diariamente os principais acontecimentos do Brasil e do mundo, produzindo matérias sobre política, economia, segurança pública, esportes, tecnologia, entretenimento e outros temas de interesse geral, sempre com foco em informações precisas, atualizadas e relevantes. Acredito na importância de um jornalismo claro, responsável e acessível. Meu objetivo é transformar os principais acontecimentos em conteúdos objetivos e confiáveis, ajudando os leitores a compreenderem os fatos, acompanharem as notícias com confiança e se manterem sempre bem informados.