Gabriel Ganley morreu durante uma sessão de musculação e voltou a expor um problema antigo no Brasil: a falta de avaliação médica prévia e de acompanhamento por profissional habilitado antes e durante a prática de exercícios com carga. Especialistas alertam que a combinação entre exames cardiológicos, anamnese detalhada e orientação técnica qualificada reduz os riscos de eventos graves nas academias.
O caso ganhou repercussão nacional e reabriu a discussão sobre os protocolos de segurança adotados, ou ignorados, por frequentadores e gestores de academias em todo o país. Para cardiologistas e profissionais de educação física, o episódio integra um padrão preocupante ligado à ausência de triagem de saúde antes do início das atividades físicas intensas.
O Brasil tem mais de 30 mil academias registradas e dezenas de milhões de praticantes. É um dos maiores mercados do mundo nesse segmento. Mesmo assim, a exigência de atestado médico para ingresso, prevista em resoluções do Conselho Federal de Medicina e do Conselho Federal de Educação Física, ainda encontra resistência tanto dos estabelecimentos quanto dos próprios alunos.
Médicos ouvidos sobre o tema dizem que muitas condições cardíacas silenciosas, como miocardiopatia hipertrófica e arritmias, só se manifestam sob esforço físico intenso. Sem eletrocardiograma ou ecocardiograma realizados antes do início dos treinos, o praticante desconhece o risco ao qual se expõe a cada série de agachamento ou supino.
O que a ciência diz sobre prevenção em academias
A literatura médica é direta: a triagem cardiovascular pré-participação reduz a incidência de mortes súbitas durante exercícios físicos. O protocolo recomendado inclui questionário de saúde, avaliação clínica com médico e, quando indicado, exames como teste ergométrico e ecocardiograma.
Profissionais de educação física têm papel central nesse processo. O acompanhamento por educador físico credenciado garante que a execução dos movimentos seja tecnicamente correta, que as cargas sejam progressivas e compatíveis com o condicionamento do aluno e que sinais de alerta — falta de ar excessiva, dor no peito, tontura — sejam identificados a tempo.
Grande parte dos acidentes graves ocorre quando o praticante treina sozinho, segue planilhas genéricas retiradas da internet ou ignora sintomas que deveriam acionar protocolo de emergência. A ausência de um profissional no momento do treino torna a resposta a intercorrências mais lenta e menos eficaz.
A morte súbita por esforço não atinge apenas sedentários ou pessoas com saúde debilitada. Atletas jovens e aparentemente saudáveis figuram entre as vítimas com frequência maior do que se imagina, justamente porque a ausência de sintomas prévios cria falsa sensação de segurança no praticante e na família.
Responsabilidade das academias e a legislação vigente
Academias brasileiras têm obrigação legal de exigir atestado médico dos alunos. A Resolução CONFEF nº 046/2002 determina que o profissional de educação física solicite documento comprobatório de aptidão para a prática de atividade física. Na prática, muitos estabelecimentos abandonam essa exigência para não perder clientes num mercado altamente competitivo.
Advogados especializados em direito desportivo apontam que, em casos de morte ou lesão grave dentro de academias, a responsabilidade civil pode recair sobre o estabelecimento se ficar comprovado que a triagem de saúde não foi feita adequadamente. O caso Ganley pode virar precedente para ações judiciais e para o endurecimento da fiscalização pelos órgãos competentes.
Há ainda o debate sobre DEA, os desfibriladores externos automáticos, nas academias. Alguns estados já têm legislação que torna obrigatória a presença do equipamento em estabelecimentos de prática esportiva. A fiscalização do cumprimento, porém, ainda é irregular.
Um debate que não é novo
A segurança na musculação entra e sai da agenda pública toda vez que um caso dramático chama atenção. Nos últimos anos, episódios com atletas amadores e frequentadores comuns de academias geraram campanhas de conscientização promovidas por conselhos profissionais de saúde e educação física, sem mudança efetiva nos hábitos do setor.
O crescimento acelerado do mercado fitness no Brasil no pós-pandemia trouxe milhões de novos praticantes às academias, muitos sem histórico anterior de atividade física regular. Esse perfil, combinado com a pressão estética e a cultura do desempenho imediato, ampliou os riscos já existentes e tornou mais urgente a adoção de protocolos padronizados de segurança em todo o território nacional.
O caso Ganley não deve ser tratado como fatalidade isolada. Ele abre uma oportunidade concreta para que autoridades de saúde, conselhos profissionais e o setor privado se articulem em torno de medidas que tornem as academias brasileiras ambientes genuinamente mais seguros. Avaliação médica obrigatória, educador físico qualificado presente e equipamentos de emergência disponíveis formam o tripé que especialistas defendem como ponto de partida inegociável para qualquer política pública ou regulação setorial que queira evitar novas mortes evitáveis.
