O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu ordenou ao Exército de Israel tomar o controle de 70% da Faixa de Gaza, desconsiderando os termos do cessar-fogo firmado com o Hamas em vigor desde outubro do ano passado. O anúncio foi feito nesta quinta-feira (28) durante coletiva de imprensa na Cisjordânia e amplia de forma direta as operações militares israelenses no território palestino.
A ordem torna praticamente inviável a desocupação gradual prevista no acordo de trégua. O plano original exigia a retirada progressiva das tropas para além da linha divisória como condição para o avanço das negociações sobre a segunda fase do cessar-fogo.
Mediadores internacionais e organizações humanitárias receberam o anúncio com alarme, vendo nele um novo obstáculo às já frágeis negociações de paz. O conflito em Gaza deve se intensificar nas próximas semanas, com reflexos diretos sobre a população civil palestina.
Avanço territorial consolida presença militar israelense em Gaza
A expansão anunciada por Netanyahu não ocorre de forma isolada. Em meados de maio, o governo israelense já havia ampliado seu domínio territorial no enclave para 60% do total da Faixa. O novo avanço para 70% aprofunda a presença das Forças de Defesa de Israel (IDF) no território.
Os bombardeios continuam de forma ininterrupta em diversas regiões de Gaza, segundo relatos de agências internacionais que operam na área. As forças israelenses mantêm pressão sobre redutos do Hamas enquanto expandem as zonas sob controle direto do Exército.
Israel e Hamas trocam acusações mútuas de violação do acordo de trégua. Cada lado responsabiliza o outro pelo impasse nas negociações sobre a segunda fase do cessar-fogo, que preveria a libertação de reféns israelenses ainda mantidos em Gaza em troca de prisioneiros palestinos detidos por Israel.
Analistas ouvidos por agências internacionais apontam que a declaração de Netanyahu atende também a um propósito político interno. O premiê enfrenta pressão de setores da direita religiosa em sua coalizão de governo, que quer uma ofensiva ainda mais ampla no território palestino.
Crise humanitária atinge mais de 2 milhões de palestinos
Organizações humanitárias que atuam na região alertam para uma situação catastrófica enfrentada por mais de dois milhões de palestinos em Gaza. Com grande parte do território sob controle militar israelense, o acesso de comboios de ajuda humanitária ficou ainda mais restrito.
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha e agências ligadas à ONU acusam Israel de descumprir obrigações internacionais relativas à proteção de civis em zonas de conflito e ao acesso de assistência humanitária. Israel rejeita essas acusações, argumentando que as operações militares visam exclusivamente estruturas e combatentes do Hamas.
A crise humanitária em Gaza se agravou desde outubro de 2023, com destruição massiva de infraestrutura, hospitais e residências. Estimativas de organismos internacionais indicam que a maior parte da população do enclave está deslocada internamente, sem acesso regular a alimentos, água potável e serviços de saúde.
Países europeus e nações árabes exigem o cumprimento dos termos do cessar-fogo e a abertura de corredores humanitários permanentes. Os Estados Unidos, principal aliado de Israel, expressam preocupação com a situação humanitária sem impor condições concretas ao governo Netanyahu.
Como chegamos ao impasse atual
O cessar-fogo entre Israel e Hamas foi anunciado em outubro de 2025 após meses de mediação conduzida pelo Qatar, Egito e Estados Unidos. O acordo previa pausas humanitárias, liberação de reféns e negociações sobre uma solução política mais duradoura para o conflito iniciado com o ataque do Hamas ao território israelense em 7 de outubro de 2023.
O cumprimento do acordo foi marcado por tensões desde o início. Israel afirma que o Hamas não cumpriu cláusulas relacionadas à liberação de reféns e ao desarmamento em determinadas áreas. O Hamas denuncia que Israel nunca interrompeu de fato as operações militares e o bloqueio ao enclave, contrariando o espírito do acordo.
A declaração desta quinta-feira é o golpe mais duro até agora contra as perspectivas de avanço do processo de paz. Com 70% do território sob controle israelense e os bombardeios em curso, as chances de retomada das negociações sobre a segunda fase do cessar-fogo recuaram no curto prazo.
Nos próximos dias, mediadores internacionais e o Conselho de Segurança da ONU devem reagir formalmente à declaração de Netanyahu. O Hamas ainda não deu resposta oficial — pode tanto escalar a retórica quanto buscar uma saída negociada para evitar o colapso do acordo de trégua. As condições humanitárias para a população civil de Gaza tendem a piorar enquanto as operações militares avançam.
