Polymarket e Kalshi, plataformas internacionais de mercado de previsões, foram bloqueadas pelo governo brasileiro em abril de 2026, junto a outras 25 plataformas similares. Os dois sites continuam a circular nas redes sociais do país, apresentados por políticos e influenciadores de direita como alternativa confiável às pesquisas eleitorais tradicionais para medir a disputa presidencial.

Uma análise de publicações na rede X identificou aumento no número de menções às duas plataformas em português ao longo de 2026. Parte dos posts mais populares foi publicada justamente depois do bloqueio oficial. O discurso dominante nessas postagens sugere que o senador Flávio Bolsonaro (PL) lideraria a disputa presidencial com base nos contratos negociados nesses mercados.

A publicação de maior engajamento no recorte é de autoria do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), datada de 6 de maio de 2026. Curtidas, comentários e compartilhamentos concentram-se em contas ligadas ao bolsonarismo e à direita brasileira, segundo a mesma análise.

O que são Polymarket e Kalshi e como funcionam os mercados de previsão

As plataformas funcionam como bolsas de contratos financeiros: os usuários compram e vendem apostas sobre se um determinado evento vai ou não acontecer. O escopo vai de resultados eleitorais a jogos esportivos, passando por decisões econômicas e fenômenos climáticos. No jargão financeiro, esses instrumentos são classificados como derivativos.

📊 Contexto: Derivativos são contratos cujo valor depende do desempenho de um ativo ou evento subjacente. Nos mercados de previsão, o “ativo” é a probabilidade de um evento ocorrer. O preço do contrato oscila conforme a demanda dos apostadores, e não conforme dados empíricos de intenção de voto coletados em campo.

A popularidade dessas plataformas como termômetro político se apoia na chamada “sabedoria das multidões”: a ideia de que o agregado de apostas tenderia a refletir uma previsão coletiva racional. Especialistas em ciência política e estatística apontam falhas graves nesse raciocínio quando aplicado a eleições brasileiras.

Os principais problemas são o perfil altamente específico dos apostadores, a concentração de capital nas mãos de poucos participantes e o fato de que os contratos refletem expectativas de quem aposta dinheiro, não a distribuição real do eleitorado. Os números podem ser distorcidos por grupos organizados com interesse em criar narrativas favoráveis a determinados candidatos.

⚠️ Atenção: Polymarket, Kalshi e outras 25 plataformas similares estão bloqueadas no Brasil desde abril de 2026 por decisão do governo federal. O acesso por meio de VPN ou outros métodos pode envolver riscos legais e financeiros para o usuário.

Por que a direita brasileira abraçou as plataformas proibidas

A adoção dos mercados de previsão como argumento político não é exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos, apoiadores de Donald Trump usaram o Polymarket intensamente durante as eleições presidenciais de 2024. Investigações chegaram a apurar se grandes apostas concentradas foram usadas deliberadamente para inflar as probabilidades do candidato republicano e gerar cobertura de mídia favorável.

No Brasil, o movimento segue padrão semelhante. A narrativa construída nas redes sugere que institutos tradicionais, como Datafolha e Ipec, seriam enviesados contra a direita, e que os mercados de apostas representariam uma medição mais “honesta” e “livre” da realidade eleitoral. Essa desconfiança em relação às pesquisas de intenção de voto é recorrente no campo bolsonarista desde pelo menos 2018.

“Mercados de previsão refletem o comportamento de apostadores, não do eleitorado. São instrumentos financeiros, não instrumentos de mensuração democrática. Usá-los como substitutos de pesquisas é um erro metodológico grave.”

Especialista em ciência política e métodos quantitativos, consultado pela reportagem

A comparação entre as duas formas de medir a eleição expõe diferenças fundamentais de metodologia:

Critério Pesquisas eleitorais Mercados de previsão
Base de dados Amostra representativa do eleitorado Apostadores com acesso à plataforma
Metodologia Estatística amostral com margem de erro Precificação por oferta e demanda
Regulação no Brasil Reguladas pelo TSE e legislação eleitoral Bloqueadas pelo governo desde abril de 2026
Transparência Metodologia pública e auditável Composição dos apostadores é opaca
Risco de manipulação Sujeita a críticas, mas com fiscalização Alto risco de concentração e distorção

Bloqueio e contexto regulatório no Brasil em 2026

O governo bloqueou ao menos 27 sites de mercado de previsões em abril de 2026 dentro de um movimento mais amplo de regulação das chamadas apostas online no país. Nos meses anteriores, o debate sobre as “bets” já havia dominado o noticiário, com discussões sobre endividamento de consumidores, publicidade voltada a públicos vulneráveis e a necessidade de regras claras para o setor.

O bloqueio de Polymarket e Kalshi foi justificado pela ausência de licença para operar no território nacional e pelo enquadramento dos contratos como instrumentos financeiros não autorizados pelo Banco Central e pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). As duas agências reguladoras fiscalizam produtos derivativos no país.

A proibição técnica ao acesso direto não interrompeu o uso político das informações. Capturas de tela com os números das plataformas continuaram a circular sem pausa nas redes sociais. Com as eleições presidenciais de 2026 se aproximando, o debate sobre a legitimidade dessas plataformas como fonte de dados eleitorais deve ganhar força, e exige atenção dos órgãos eleitorais brasileiros.

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