O plantio de coca na Colômbia alcançou um recorde de 250 mil hectares, conforme dados recentes divulgados em julho de 2026. Agricultores como Perea, da região de Meta, retornaram ao cultivo da planta devido a atrasos no apoio governamental e dificuldades logísticas que dificultam a viabilidade do cultivo legal.
Programa de Substituição e suas limitações
O Programa Nacional Integral de Substituição de Cultivos Ilícitos (PNIS), lançado em 2017 após o acordo de paz entre o governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), tinha como objetivo oferecer auxílio financeiro a cerca de 100 mil famílias em troca da erradicação da coca. A proposta incluía pagamento de 36 milhões de pesos colombianos por família (aproximadamente R$ 57 mil) parcelados em dois anos, além de suporte técnico e orientações agronômicas.
No entanto, o programa enfrentou dificuldades desde seu início. Agricultores relatam atrasos nos repasses financeiros e ausência de assistência técnica, agravadas pela precariedade da infraestrutura, como estradas insuficientes e áreas sujeitas a inundações. Essas condições prejudicaram a comercialização das culturas legais, como mandioca e banana, utilizadas para substituir a coca.
Reversão do cultivo e causas
Perea, que inicialmente abandonou o cultivo de coca em sua propriedade isolada de Meta e passou a plantar alimentos, retornou à produção da folha em 2024, motivado pela falta de alternativas de renda sustentável. Para ele, a ausência do apoio prometido e a necessidade de sustentar a família deixaram poucas opções.
Especialistas como Lucas Marín Llanes destacam que a coca oferece vantagens econômicas para os agricultores: colheitas frequentes, facilidade de transporte e preço fixo garantido. Entre 2014 e 2019, o cultivo da coca chegou a aumentar o PIB municipal em até 10% em algumas regiões, impulsionando a economia local.
Contexto histórico e impacto social
Durante a década de 1990, a região de Guaviare experimentou um crescimento do cultivo de coca, atraindo trabalhadores com a promessa de melhores rendas. Elena Hernández, que se mudou para a região nessa época, conseguiu economizar e adquirir uma casa, mas também presenciou o aumento da violência decorrente da disputa entre grupos armados pelo controle da produção.
O governo adotou esforços para conter o cultivo por meio de erradicação manual, fumigações aéreas e prisões, sem sucesso significativo. A partir de 2017, o PNIS representou a maior iniciativa para substituir a cultura ilícita, mas o programa perdeu força com a mudança de governo em 2018, quando Iván Duque priorizou ações de segurança e erradicação.
Nova fase com o governo Petro
Com a posse de Gustavo Petro em 2022, houve um resgate do programa de substituição. Segundo a agricultora Doralba Bejarano, que também abandonou o cultivo de coca, a situação melhorou a partir desse momento, apesar das dificuldades persistentes.
Em 2025, o governo lançou o programa RenHacemos, que visa corrigir as falhas do PNIS e diversificar as economias locais, além de investir em infraestrutura para conectar melhor as regiões rurais. Contudo, a demanda internacional pela cocaína e a presença contínua de grupos armados rurais mantêm o cultivo ativo.
Perspectivas e desafios
O pesquisador Michael Weintraub enfatiza que, enquanto existir essa demanda e o controle de grupos ilegais nas zonas rurais, o plantio da folha de coca dificilmente diminuirá. Para agricultores como Perea e Hernández, a questão econômica e a falta de garantias pelo Estado continuam determinando a escolha pelo cultivo da coca.
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