Ao ouvir ‘Flor de maracujá’ na interpretação de Roberta Sá para o álbum inédito ‘Viva Donato’, um tributo a João Donato, fiquei novamente impressionado com a presença viva do estilo vocal de Gal Costa na música brasileira. A canção, composta por João Donato e Lysias Ênio, foi originalmente apresentada ao público na voz de Gal há 52 anos, no disco ‘Cantar’ de 1974.
Mas não é apenas pela origem que essa música remete à Gal. A leveza e a atmosfera que Roberta Sá imprime carregam a marca do canto que Gal costumava fazer, um canto afinado e sutil que, segundo relatos, ela própria reconhecia em Roberta. Quase quatro anos após a morte inesperada de Gal Costa, sua influência continua sendo a referência maior para muitas cantoras contemporâneas.
Uma escola de canto que atravessa gerações
Minha experiência acompanha essa influência desde muito tempo. Quando ouvi o primeiro disco autoral de Marisa Monte, ‘Mais’ (1991), detectei traços do estilo de Gal. O mesmo aconteceu com o trabalho inicial de Tulipa Ruiz em 2010 e nas interpretações de Jussara Silveira. As artistas construíram suas trajetórias, mas a sombra vocal de Gal continua presente como um padrão que muitas adotam.
Essa presença não se limita a uma ou outra gravação. É um legado que atravessa o tempo, passando de geração a geração como parte da própria história da música brasileira. A versão de Roberta Sá para ‘Flor de maracujá’ é apenas mais uma dessa longa linhagem, uma gravação bonita que talvez os ouvidos mais jovens não percebam em sua totalidade. Para quem viveu aquela época, é impossível separar essa música da imagem e do som de Gal Costa.
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