Roberto Feith, conhecido por seu trabalho como repórter, produtor de TV e editor da editora Objetiva, escolheu os 73 anos para lançar seu primeiro romance, “Filhos da Mãe Gentil”. Para ele, esse momento não surge do nada, mas de um desejo amadurecido ao longo do tempo. Segundo Feith, o impulso para criar aumenta com a idade, numa tentativa de deixar algo além do próprio legado. Cita o ensaísta Kenneth Rexroth para ilustrar essa visão: o ato criativo é a melhor defesa contra a decadência do mundo.
Um jornalista em crise e a indústria da celebridade
O protagonista do livro, Roberval Pompermayer, é um jornalista experiente que, diante da perda de espaço na profissão, se envolve em um universo complexo que engloba fabricação de celebridades, contravenção, política, mercado financeiro e tecnologia de inteligência artificial. Feith admite que Roberval remete a sua própria trajetória e às dificuldades enfrentadas por profissionais do jornalismo na atualidade.
O autor aponta que o personagem simboliza os desafios da imprensa contemporânea, marcada pela decadência e pela emergência de um mundo obcecado pela fama e pela exposição nas redes sociais. Para Feith, hoje grande parte das oportunidades profissionais está vinculada à indústria da celebridade, um espaço que substitui antigos caminhos para prestígio, como riqueza e poder.
Capitalismo de compadrio e o papel das mídias sociais
Em “Filhos da Mãe Gentil”, Feith usa elementos como jogo do bicho, mercado financeiro, política e tecnologia para satirizar o Brasil atual. Ele destaca que o capitalismo brasileiro ainda se baseia em relações pessoais e favorecimentos, uma constatação que atravessa toda a narrativa.
A fama surge no livro como uma moeda social, que pode ser facilmente monetizada graças à cultura do espetáculo impulsionada pelas redes sociais. Porém, Feith chama a atenção para as plataformas que sustentam essa indústria, responsáveis por faturamentos bilionários muito superiores aos ganhos dos influenciadores, e também por alimentar a circulação de notícias falsas por meio de seus algoritmos.
De produtor a editor e agora romancista
O caminho de Feith até a fundação e consolidação da Objetiva foi cheio de desafios. Ele iniciou sua carreira em 1988 com uma produtora que criou uma série para a TV Manchete sobre a história do cinema brasileiro, que não foi aproveitada, mas gerou um livro pela Nova Fronteira. Pouco depois, o editor Alfredo Gonçalves o convidou para investir na recém-criada Objetiva, ideia que a maior parte dos amigos dele, exceto sua esposa Anna, desencorajava.
Com recursos próprios, Feith tornou-se majoritário na editora, que cresceu graças a uma combinação de competência editorial, ousadia e também sorte. A continuidade editorial, segundo ele, é o maior desafio para editoras pequenas. Em 2005, vendeu o controle da Objetiva ao grupo espanhol Santillana e, posteriormente, em 2014, vendeu sua participação remanescente para a Penguin Random House, que depois integrou a editora ao Grupo Companhia das Letras.
O desafio da ficção
Hoje Feith dirige o selo História Real na editora Intrínseca, focado em não ficção brasileira. No entanto, admite que escrever um romance requereu uma abordagem diferente. Enquanto a não ficção se apoia em fatos, a ficção nasce da imaginação e oferece um campo ilimitado de possibilidades.
Para Feith, o papel do leitor é fundamental na ficção, pois cabe a ele preencher lacunas e se envolver na construção do mundo narrado. O autor propõe cenários e personagens, mas é o leitor quem dá vida a tudo aquilo que não está explicitamente descrito.
