O Salão de Pequim 2026 recebeu cerca de 890 mil visitantes, expôs 1.451 veículos e registrou 181 lançamentos mundiais. Para os jornalistas estrangeiros, porém, o evento foi também uma maratona de obstáculos técnicos e culturais.
A área total dos pavilhões chegou a 380 mil metros quadrados — quase seis vezes o tamanho do Salão do Automóvel de São Paulo, que ocupa 64 mil metros quadrados. Quem chega acostumado com os padrões europeus ou sul-americanos leva um choque de escala logo nos primeiros minutos dentro do recinto.
O repórter André Fogaça, que viajou ao evento a convite das montadoras Leapmotor e GWM, descreveu um ambiente altamente tecnológico, mas deliberadamente pouco amigável para profissionais vindos de fora da China. Infraestrutura de ponta conviveu com barreiras digitais impostas pelo governo — um paradoxo difícil de resolver no dia a dia da reportagem.
Lives dominam os estandes: a cultura de transmissão ao vivo na China automotiva
Um dos fenômenos mais marcantes nos pavilhões foi o domínio absoluto das transmissões ao vivo. Em salões ocidentais, fotógrafos e câmeras tradicionais disputam espaço nos lançamentos. Em Pequim, o que chamava atenção eram apresentadores e influenciadores transmitindo em tempo real para suas audiências digitais.
O formato é peculiar. Em vez de produções elaboradas com iluminação dedicada e roteiro fechado, as lives aconteciam de forma quase contínua em todos os estandes — comunicadores segurando smartphones interagiam ao mesmo tempo com o público presencial e com espectadores remotos. A prática mostra o peso das plataformas de streaming no consumo de conteúdo da população chinesa, bem distinto dos hábitos ocidentais.
Nos estandes de marcas como BYD, montadoras chinesas Nio e Xiaomi, as transmissões se multiplicavam em sequência, com diferentes apresentadores cobrindo o mesmo veículo em horários alternados. A audiência agregada dessas lives pode superar, em poucos dias, a soma de visualizações de toda a cobertura tradicional em vídeo produzida por veículos de imprensa internacionais durante o evento.
Internet bloqueada: o principal obstáculo para jornalistas estrangeiros
Se a cultura das lives exigiu adaptação editorial, a internet bloqueada foi o obstáculo mais imediato. A China opera sob o chamado “Grande Firewall”, sistema governamental que impede o acesso a plataformas usadas por jornalistas no mundo todo: Google, WhatsApp, Instagram, YouTube e Twitter/X.
Para um profissional que precisa enviar textos, fotos e vídeos em tempo real para a redação no Brasil, a ausência dessas ferramentas rompe o fluxo habitual de trabalho. A saída mais comum entre correspondentes é usar redes VPN (Redes Privadas Virtuais). O governo chinês, porém, intensificou o bloqueio de vários desses serviços nos últimos anos, tornando a conexão instável e imprevisível.
Ferramentas de edição colaborativa, serviços de armazenamento em nuvem e até alguns aplicativos de e-mail ficam inacessíveis sem uma conexão alternativa funcionando. O jornalismo digital produzido dentro da China depende de planejamento técnico muito mais rigoroso do que o exigido em qualquer outro grande evento automotivo internacional.
| Evento | Área dos pavilhões | Veículos expostos | Visitantes estimados |
|---|---|---|---|
| Salão de Pequim 2026 | 380.000 m² | 1.451 | ~890.000 |
| Salão de São Paulo | 64.000 m² | Não informado | Não informado |
Robôs nos estandes: tecnologia como protagonista do evento
A presença de robôs humanoides e autônomos nos estandes de diversas marcas também marcou os bastidores da cobertura. O uso de robótica como atração de marketing não é novidade na China, mas o nível de integração com a apresentação dos veículos surpreendeu até profissionais acostumados a cobrir tecnologia. Robôs interativos recepcionavam visitantes, respondiam perguntas básicas e, em alguns casos, faziam demonstrações ao lado dos próprios automóveis.
A estratégia é deliberada. Montadoras e fornecedores chineses querem associar seus produtos ao universo da inteligência artificial automotiva e da mobilidade do futuro. Com 71 carros-conceito apresentados, a mensagem era direta: a indústria automotiva da China não quer ser vista apenas como fabricante de elétricos acessíveis, mas como protagonista da próxima geração de mobilidade integrada com tecnologia.
A cobertura do Auto China 2026 deixou uma lição objetiva para jornalistas: acompanhar o maior mercado automotivo do mundo exige preparo editorial, resiliência técnica e um plano B, C e D para cada ferramenta que, em qualquer outro país, seria considerada básica. Os próximos salões devem ampliar ainda mais essa distância operacional e tecnológica em relação aos eventos realizados no Ocidente.
