Desde 22 de julho de 2026, os Estados Unidos aplicam tarifas extras de 25% sobre determinados produtos brasileiros, impactando principalmente setores que dependem fortemente desse mercado. Economistas consultados afirmam que, embora algumas empresas sofram pressão para encontrar novos compradores rapidamente, não há risco de crise econômica generalizada no Brasil.
Redução da presença dos EUA nas exportações brasileiras
O contexto atual difere do contexto de 20 anos atrás, quando os EUA respondiam por cerca de 19% das exportações brasileiras. Em 2025, essa participação caiu para 12%, chegando a 9,4% no primeiro semestre de 2026, segundo dados do Comexstat do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). No mesmo período, a China reafirmou sua posição como maior comprador do Brasil, com mais de 30% das vendas externas.
O desafio para o país não é só a perda do mercado americano, mas a capacidade de diversificar destinos sem substituir uma dependência por outra, além de aumentar a competitividade da indústria nacional.
Especialistas destacam mudanças no perfil comercial brasileiro
Segundo Leonardo Paz, pesquisador da Fundação Getulio Vargas, a ascensão da China como principal parceiro comercial desde 2009 tornou previsível a menor participação dos EUA. O Brasil aproveitou o crescimento da economia chinesa e sua demanda por commodities agrícolas e minerais. Para Crivelaro, o país chega à situação atual com uma pauta exportadora mais diversificada, aumentando a presença em mercados asiáticos e outras economias emergentes.
De acordo com a Secretaria de Comércio Exterior, 57% das exportações brasileiras para os EUA não têm as novas tarifas aplicadas. O total de empresas afetadas diretamente é de 2,4 mil, das quais 74% já exportam para outros países. Mesmo assim, a diversificação não elimina completamente o impacto da perda do mercado americano.
Dificuldades no redirecionamento das exportações
Roberto Dumas, professor do Insper, explica que commodities são mais fáceis de redirecionar devido ao comércio padronizado globalmente. Já produtos industrializados, como calçados, enfrentam mais barreiras, pois são adaptados a mercados específicos. Estima-se que 18% das exportações brasileiras sofram com as tarifas, e abrir novos mercados pode levar de 12 a 36 meses envolvendo negociações, homologações e adaptação logística.
Entre os mercados com potencial para receber mais exportações brasileiras estão Índia, países do Sudeste Asiático (Indonésia, Vietnã, Tailândia, Filipinas, Malásia e Singapura), Oriente Médio e algumas economias africanas como Angola, África do Sul, Nigéria e Egito.
Resultados recentes e perspectivas
Em 2025, o Brasil alcançou recorde de US$ 348,7 bilhões (R$ 1,774 trilhão) em exportações, com mais de 40 países registrando volumes históricos de compra. Destaques incluem Índia, Canadá, Turquia, Paraguai, Uruguai, Suíça, Paquistão e Noruega. As vendas para China, União Europeia e Argentina cresceram 6%, 3,2% e 31,4%, respectivamente, impulsionadas pelo setor automotivo.
Para Dumas, o objetivo não é substituir os EUA, mas mantê-los como parceiro importante enquanto expande a atuação em outros mercados. Por outro lado, Fabrizio Panzini, da Amcham Brasil, observa que a pauta de exportações para os EUA é majoritariamente industrial, enquanto para outros destinos predomina commodities, dificultando a substituição direta das vendas americanas.
Exportadores de produtos como carne e café buscam ampliar vendas a outros países, enquanto setores como máquinas, equipamentos, madeira, móveis, cerâmica e calçados enfrentam desafios maiores para redirecionar suas exportações devido a especificidades de mercado e certificações necessárias.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) avalia que a sobretaxa agrava uma situação já difícil para as vendas ao mercado americano e eleva a insegurança para empresas brasileiras e americanas.
Competitividade doméstica é fator decisivo
Especialistas concordam que abrir novas fronteiras comerciais depende mais da capacidade interna do Brasil para melhorar competitividade do que apenas da questão tarifária. Leonardo Paz defende políticas industriais focadas em inovação e aumento da produtividade para fortalecer a presença internacional do país.
