As vendas globais de chips de memória DRAM cresceram 85,8% em receita, puxadas pela demanda explosiva de datacenters voltados à inteligência artificial. O salto beneficia diretamente a Samsung, líder mundial na fabricação desse componente, que amplia margens e consolida posição no mercado de semicondutores.
O crescimento foi puxado, sobretudo, pelo aumento nos preços dos módulos de memória, reflexo direto da escassez relativa de oferta frente a uma demanda que não para de crescer. Grandes empresas de tecnologia que operam infraestrutura de nuvem e treinamento de modelos de linguagem precisam de volumes cada vez maiores de memória de alta capacidade para sustentar suas operações. Isso criou uma janela de oportunidade rara para os fabricantes sul-coreanos.
A combinação de preços mais altos com volumes crescentes de encomendas gerou um efeito multiplicador nas receitas das fabricantes. Para a Samsung, que além de DRAM também produz memória NAND Flash e chips lógicos, o momento representa uma recuperação significativa após trimestres de margens pressionadas. A empresa sul-coreana responde, historicamente, por cerca de 40% a 45% da produção mundial de DRAM.
Por que a demanda por DRAM explodiu com a era da IA
A expansão dos datacenters dedicados à inteligência artificial generativa é o principal motor desse crescimento. Modelos que alimentam assistentes virtuais, ferramentas de geração de imagem e plataformas de análise preditiva exigem servidores com altíssima capacidade de memória para processar bilhões de parâmetros simultaneamente. Sem DRAM suficiente, esses sistemas não conseguem operar em escala.
Há também uma mudança qualitativa na demanda. Os datacenters de IA passaram a requisitar versões mais avançadas do componente, como a HBM (High Bandwidth Memory), uma variação da DRAM projetada para trabalhar junto a GPUs de alto desempenho. A produção de HBM é tecnicamente mais complexa e, portanto, mais lucrativa para quem a domina, como a própria Samsung e sua concorrente SK Hynix.
O ciclo de preços da DRAM é historicamente volátil. Períodos de superprodução derrubam as cotações e levam fabricantes a prejuízos bilionários, enquanto fases de demanda aquecida elevam as receitas de forma igualmente dramática. O crescimento de 85,8% registrado agora contrasta com 2022 e 2023, quando o mercado enfrentou uma das piores correções da última década, com preços caindo mais de 50% em alguns segmentos.
Entre os fatores que aqueceram o mercado, os principais são:
- Expansão de datacenters de IA: grandes empresas de tecnologia anunciaram investimentos de centenas de bilhões de dólares em infraestrutura de computação ao longo de 2025 e 2026.
- Demanda por HBM: a memória de alta largura de banda tornou-se insumo crítico para GPUs de última geração, elevando o valor médio por unidade vendida.
- Restrições de oferta: a produção de chips avançados exige fábricas de altíssima precisão, e a capacidade instalada cresce mais lentamente do que a demanda.
- Recuperação do mercado de smartphones: após dois anos de queda, as vendas de aparelhos voltaram a crescer, adicionando pressão sobre o estoque global de memória DRAM.
- Estoques reduzidos: fabricantes cortaram produção durante o ciclo de baixa, o que deixou os canais de distribuição com volumes abaixo do normal.
“O mercado de memória para aplicações de inteligência artificial ainda está nos estágios iniciais de crescimento. A demanda por HBM e DRAM de servidor deve continuar superando a capacidade de expansão da oferta nos próximos dois a três anos.”
Jung-bae Lee, Vice-presidente de Desenvolvimento de Memória na Samsung Electronics
Samsung e o mercado de semicondutores: impacto financeiro e próximos passos
Para a Samsung Electronics, o crescimento das vendas de DRAM representa muito mais do que um alívio após um ciclo difícil. A divisão de semicondutores da empresa, conhecida internamente como DS (Device Solutions), responde por uma fatia relevante de toda a receita do conglomerado sul-coreano. Em anos de baixa no mercado de chips, essa divisão chegou a registrar prejuízos operacionais que pesaram sobre os resultados consolidados do grupo.
Com a retomada dos preços e o aumento da demanda, analistas esperam que a margem operacional da divisão de memória volte a níveis historicamente saudáveis, acima de 20%. O setor acompanha de perto os resultados trimestrais da Samsung como termômetro da saúde geral do mercado de semicondutores, já que a empresa detém participação dominante tanto em DRAM quanto em NAND Flash.
A concorrente SK Hynix também deve se beneficiar do mesmo movimento, especialmente por sua liderança no segmento de HBM, onde possui contratos de fornecimento com a Nvidia, maior fabricante de GPUs do mundo. A Micron, por sua vez, acelerou investimentos em fábricas nos Estados Unidos, incentivada pela legislação federal americana de apoio à indústria de semicondutores.
O principal risco para a continuidade desse ciclo positivo é um eventual excesso de investimento em capacidade produtiva. Se as três grandes fabricantes expandirem suas fábricas de forma coordenada, a oferta pode superar a demanda já a partir de 2027, repetindo o padrão histórico de superprodução que derruba preços. Por ora, o ritmo de expansão das fábricas segue abaixo do crescimento da demanda, o que sustenta a perspectiva positiva para o restante de 2026. A Samsung, que já anunciou planos de ampliar sua capacidade de produção de chips de memória avançados na Coreia do Sul e no exterior, divulgará seus resultados financeiros do segundo trimestre nas próximas semanas, confirmando o impacto real desse crescimento de 85,8% em suas demonstrações contábeis.
