Nem todo ovo de Páscoa é o que aparenta. Com a crescente oferta de produtos rotulados como “sabor chocolate”, muitos consumidores podem acabar adquirindo itens elaborados com gordura vegetal, em vez do cacau, como determina a legislação brasileira. “Um produto só pode ser considerado chocolate se a gordura utilizada for exclusivamente a manteiga de cacau”, explica Frederico Canella, engenheiro de alimentos da Royale Soluções Industriais.
Requisitos legais
Conforme a legislação nacional, para que um produto seja classificado como “chocolate”, é necessário que contenha, no mínimo, 25% de sólidos de cacau, que incluem a massa e a manteiga de cacau. “Essa regra visa garantir a qualidade para o consumidor. Na Europa, por exemplo, a porcentagem mínima costuma ser de 32%”, detalha Canella, que também é criador do perfil Resenha dos Alimentos nas redes sociais. Além disso, as gorduras vegetais não podem ultrapassar 5% do total do produto.
Para o chocolate branco, a exigência é que a manteiga de cacau represente pelo menos 20% do total. Caso os produtos não atinjam esses percentuais, devem obrigatoriamente ser rotulados como “sabor chocolate”.
Transparência nos rótulos
Canella ressalta que a diferenciação deve ser clara na embalagem. Se o rótulo indicar “ovo de chocolate ao leite”, o consumidor pode ter a certeza de que o produto contém mais de 25% de sólidos de cacau. Caso contrário, a descrição correta será “ovo sabor chocolate”.
Uma dica importante do especialista é sempre observar a lista de ingredientes, que deve ser apresentada em ordem decrescente de quantidade. “No chocolate verdadeiro, os primeiros itens geralmente incluem massa de cacau, cacau e manteiga de cacau. Já nos produtos rotulados como ‘sabor chocolate’, é comum que os principais ingredientes sejam açúcar e gordura vegetal, como a de soja ou palma”, esclarece.
Gordura hidrogenada
Além disso, o chocolate autêntico não pode conter gordura hidrogenada em sua composição. “Se um produto inclui gordura hidrogenada entre os ingredientes, ele provavelmente não é chocolate. Essa gordura pode aparecer em bombons ou biscoitos, mas na massa do chocolate, sua adição é proibida por lei”, enfatiza.
Ambas as categorias de produtos são geralmente ricas em açúcar e gorduras, podendo ser prejudiciais à saúde. Entretanto, o chocolate puro é considerado mais “nobre” devido à sua composição reduzida e menor quantidade de aditivos.
Riscos à saúde
“Embora não existam estudos conclusivos sobre os danos à saúde causados pelos produtos ‘sabor chocolate’, é certo que o chocolate verdadeiro é mais sofisticado. Os produtos desse segundo grupo são frequentemente ultraprocessados e podem conter aromatizantes, corantes e até 10 ingredientes diferentes para imitar a aparência e o sabor do cacau. Muitas vezes, eles nem têm cacau na composição”, afirma Canella.
Custo e acessibilidade
Um dos fatores que contribuiu para a popularização dos produtos “sabor chocolate”, antes limitados a recheios e coberturas, mas agora comuns em barras e ovos, é a diferença de custo de produção. O cacau é uma commodity com oscilações de preço devido a questões climáticas e pragas, tornando-se caro e escasso.
“Produzir cacau e chocolate verdadeiro implica várias complexidades de custo. A oferta global varia bastante. Imagine ter uma fábrica que produz chocolate real, mas que enfrenta falta de cacau no mercado. Muitas vezes, isso pode levar à interrupção da produção, o que aumenta o custo final”, explica Canella.
Vantagens do ultraprocessado
O mercado de produtos ultraprocessados oferece vantagens em termos de previsibilidade e controle de custos. Os ingredientes utilizados, como aromatizantes, corantes, leite, açúcar e gordura vegetal, são amplamente disponíveis, facilitando o planejamento financeiro.
Esses fatores permitem que a indústria de ultraprocessados mantenha preços mais constantes e, consequentemente, ofereça opções mais acessíveis ao consumidor. “Se você se depara com dois chocolates e um deles é significativamente mais barato, cerca de 50% a menos, é provável que o mais barato seja ‘sabor chocolate'”, conclui Canella.
