Nos últimos anos, a troca constante de emprego tem se tornado uma tendência crescente entre os brasileiros, especialmente os mais jovens. Clara Martinez, arquiteta formada há seis anos, exemplifica essa realidade: já mudou quatro vezes de empresa, motivada inicialmente por ganhos financeiros e, posteriormente, pela busca por desafios e desenvolvimento profissional.
Em sua última mudança, Clara optou por abrir mão do trabalho remoto para ingressar em uma companhia maior que oferecia plano de carreira, mesmo sem aumento salarial. “Eu não saí por um ambiente ruim, mas para evitar a estagnação”, afirma.
Motivações por trás do aumento da rotatividade
Dados da consultoria Michael Page indicam que 44% dos brasileiros procuram ativamente uma nova vaga, enquanto 39% cogitam deixar seus empregos atuais. Levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego revela que a troca é mais comum entre os jovens: 25,3% dos profissionais entre 25 e 29 anos deixam o emprego antes de completar um ano. Na faixa etária de 18 a 24 anos, esse índice sobe para 38,2%, e entre adolescentes de 14 a 17 anos ultrapassa 50%.
Entre os principais motivos apontados estão baixos salários, jornadas exaustivas e falta de oportunidades de crescimento profissional. Muitos jovens não enxergam investimento das empresas em suas carreiras e, por isso, preferem buscar novas vagas com benefícios adicionais.
Causas da rotatividade, visão dos especialistas
Lucas Oggiam, diretor executivo da Michael Page Brasil, destaca que o aumento da rotatividade resulta tanto de escolhas pessoais quanto das demissões motivadas pelo quadro econômico. Ele observa que cargos operacionais e de entrada apresentam maior rotatividade, ao passo que executivos permanecem mais tempo na mesma companhia.
cortes de custos e reestruturações empresariais provocam ciclos curtos de trabalho que nem sempre refletem a vontade dos profissionais.
Transformações no mercado de trabalho e expectativas profissionais
A pesquisadora Maira Blasi atribui a mudança no comportamento à perda da estabilidade como principal atrativo no emprego. A ampliação do ensino superior e o acesso à internet facilitaram o conhecimento e o contato com diferentes carreiras e estilos de vida, mudando a forma como os brasileiros encaram suas trajetórias profissionais.
Ela ressalta que as empresas oferecem hoje menos garantias do que antes, com demissões em massa, aumento do trabalho por pessoa jurídica e projetos com prazos menores, o que reduz a vontade de permanecer muito tempo na mesma organização.
Segundo Blasi, ao implementar contratos PJ no lugar do regime CLT, as empresas deixam os trabalhadores menos ligados a elas, incentivando a busca por outras oportunidades.
A busca por diversidade, flexibilidade e propósito
Outro motivo para as trocas frequentes é a procura por ambientes de trabalho mais inclusivos e flexíveis. A maior exposição de temas como neurodiversidade e diversidade de gênero tem levado profissionais a questionar locais tradicionais, favorecendo empresas que adotam políticas de diversidade e conciliam melhor vida pessoal e carreira.
A pandemia também reforçou a valorização da vida fora do trabalho, fazendo com que muitas pessoas experimentem novos modelos profissionais. “Se a empresa não promove diversidade ou não permite cuidar da família, procuro outra”, resume Blasi.
Experiências pessoais reforçam a mudança de valores
Aos 36 anos, Ana Zampolo, especialista em educação corporativa, também viveu essa trajetória de mudanças. Ela trabalhou em cinco empresas nos últimos seis anos e chegou a abrir um negócio próprio antes de voltar ao mercado. Embora nem sempre tenha recebido salários maiores, Ana priorizou a aproximação de áreas de interesse e o alinhamento com seus valores pessoais.
Para Ana, o objetivo não é estabilidade, mas realização e propósito. “Se o ambiente ou as funções não me conduzem ao que desejo como pessoa e profissional, não permaneço. Quero construir minha carreira de forma integrada à minha vida”, afirma.
Leia também:
