Reservadamente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva considera Gabriel Galípolo, por ele indicado para a presidência do Banco Central (BC), como o maior desapontamento em sua trajetória política. A insatisfação está relacionada ao ritmo lento da redução da taxa Selic durante o ano eleitoral e à defesa de ex-presidentes da autoridade monetária no caso Banco Master.
Publicamente, Lula demonstrou estar “triste e frustrado” pela manutenção dos juros em níveis elevados. Conforme apurou o Poder360, ele chegou a dizer a interlocutores que se sentiu traído por Galípolo, até mais do que pelo ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, que afirmou ter ouvido sobre propina envolvendo o presidente durante a Lava Jato.
Antes de assumir o comando do BC em janeiro de 2025, Galípolo atuou como coordenador da campanha econômica de Lula nas eleições de 2022, foi secretário-executivo do Ministério da Fazenda e diretor de Política Monetária do Banco Central.
Em fevereiro de 2025, Lula declarou em entrevista a uma rádio do Amapá que confiava no trabalho de Galípolo para corrigir a taxa de juros, ressaltando a necessidade de dar tempo para que as medidas fossem implementadas.
Taxa Selic e cobranças públicas
Quando Galípolo assumiu, a Selic estava em 12,25%. Após aumento para 15%, a taxa foi reduzida para 13,75% ao ano em 16 de setembro de 2026, com corte de 0,25 ponto percentual.
Apesar das críticas ao comando atual, Lula já cobrava publicamente de Roberto Campos Neto, seu antecessor indicado por Jair Bolsonaro, a diminuição dos juros, associando a manutenção da Selic elevada a uma tentativa de desestabilização do seu governo.
Entretanto, a decisão sobre a Selic é tomada pelo Comitê de Política Monetária (Copom), que baseia suas resoluções na conjuntura econômica e nas perspectivas da inflação. O Copom justifica os juros altos como necessários para conter a pressão inflacionária e garantir que a inflação se mantenha dentro da meta.
Em 31 de agosto, durante jantar com banqueiros e empresários no Palácio da Alvorada, Lula negou considerar Galípolo um traidor, mas reafirmou seu descontentamento com os juros elevados, reconhecendo o mandato do presidente do BC e a necessidade de respeitá-lo.
Reações internas e críticas de aliados
Entre os aliados, a insatisfação é visível. Guilherme Boulos, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência e integrante do PSOL, afirmou que a redução da Selic ocorre num “ritmo de tartaruga” e que a autonomia do BC limita a capacidade do presidente eleito em conduzir a política econômica conforme o programa aprovado nas urnas.
José Dirceu, ex-ministro e próximo a Lula, também criticou a condução da taxa, sugerindo que a decisão estaria politizada e questionando a justificativa para a atual Selic.
Vale lembrar que os diretores do BC integrantes do Copom foram indicados pelo governo Lula.
Envolvimento no caso Banco Master
Outro fator que gerou descontentamento foi a atuação de Galípolo no escândalo do Banco Master. O PT tentou associar Roberto Campos Neto a Daniel Vorcaro, ex-proprietário da instituição, para imputar ao governo Bolsonaro a responsabilidade pelo aumento e fraudes no banco.
Porém, na CPI do Crime Organizado, Galípolo defendeu Campos Neto, afirmando que não há auditorias ou investigações que o responsabilizem.
Contexto das taxas de juros e desafios econômicos
Mesmo com as reduções recentes, em agosto de 2026 o Brasil mantinha a segunda maior taxa de juros real do mundo, de 9,33% ao ano, atrás apenas da Rússia (9,67%), segundo dados da MoneYou.
Ao longo do ano, o Copom destacou que a desaceleração em disciplina fiscal, dúvidas sobre a estabilização da dívida pública e o aumento do crédito direcionado pressionam a permanência dos juros em níveis elevados. A taxa neutra, que não estimula nem freia a economia, tem aumentado.
O economista Gustavo Sung, da Suno Research, aponta que fatores como o calendário eleitoral, o fenômeno El Niño, a persistência dos preços dos serviços e o petróleo acima de US$ 100 o barril dificultam cortes adicionais da Selic nos próximos meses.
Pressão do mercado e diagnóstico divergente
Além do Planalto, o mercado também cobra juros mais baixos, mas atribui o problema ao desequilíbrio fiscal e à lentidão nas reformas estruturais, e não a uma possível politização do Banco Central.
André Esteves, presidente do conselho do BTG Pactual, declarou em evento em São Paulo que o avanço na estabilidade macroeconômica depende da redução a taxas de juros consideradas “civilizatórias”. Segundo ele, isso é mais importante que programas sociais, políticas governamentais ou mesmo aumento do investimento.




